30 Junho 2006

" A VIDA NÃO RECUA, E NÃO SE RETARDA NO ONTEM"


A criança modelada, condicionada, disciplinada, reprimida, a criança sem liberdade...vive em todos os recantos do mundo.Vive na nossa cidade, mesmo ali do outro lado da rua. Senta-se a uma carteira monótona de monótona escola, e mais tarde senta-se a uma escrivaninha ainda mais monótona de um escritório, ou no banco da fábrica. É dócil, disposta a abedecer à autoridade, medrosa da crtítica, e quase fanática em seu desejo de ser normal, convencional e correcta. Aceita o que lhe ensinaram quase sem indigações, e transmite a seus filhos todos os seus complexos, medos e frustações.

Tudo porque todos os pais* deveriam saber:

"Teus filhos não são teus filhos.
São filhos e filhas da vida, anelada por sí própria.
Vêm através de ti, mas não de ti,
E embora estejam contigo, a ti não pertecem.
Podes dar-lhes teu amor, mas não teus pensamentos,
Pois que eles têm seus pensamentos próprios.
Pois que suas almas residem na casa do amanhã,
que não podes visitar sequer em sonhos.
Podes esforçar-te por te parecer com eles, mas não procures fazê-los semelhantes a ti,
pois a vida não recua, e não se retarda no ontem.
tu és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas, são disparados.
Que a tua inclinação, na mão do arqueiro, seja para a alegria... "(Alfred A. Knopf)

* Pai e mãe...não os quero culpar pelo o "incendio" da minha infância..biblioteca de sonhos...só quero, agora, pensar em vir a ter filhos com liberdade sem medo.

PAULO

25 Junho 2006

"LIVRE CONVICÇÃO DO JUIZ E OS ESTEREÓTIPOS"


O arguido é um dos intervenientes de um processo cada vez mais posto em causa, quando entra num tribunal, pela primeira vez, fica impressionado (O Juiz, o Ministério Público, o Agente que o deteve, o Advogado, os Funcionários, o Ofendido, as Testemunhas, os Peritos, a Imprensa, o Publico, etc.), por vezes também sente a presença dos ausentes (outros juizes de tribunais superiores, opinião publica, doutriona penal, etc.) e realidades simbólicas (a Lei, a Arquitectura da sala, a Liturgia dos rituais, etc.).
O tribunal é, por excelência, uma instância de reconstituição dos factos, construindo a «ralidade» que sustenta a fundamentação da sua decisão, vínculada, sobre a veracidade do crime. A construção da realidade, delimitada pela verdade material e pela vinculação à lei no que toca à sua valoração jurídica, está, em grande medida, depende da valoração da prova entregue à livre convicção do juiz, o qual dispõe nesse dominio duma espécie de poder absoluto ou discricionaridade real na fixação da verdade dos factos. O juiz defronta-se permanentemente com construções alternativas da realidade, a verdade da acusação e a verdade da defesa, com base nas quais irá construir a verdade processual. Mas, não raras vezes, por consequência da inacessibilidade imediata dos factos, o tribunal constroi a sua verdade com base em estereótipos que segundo a definição de Freest e Blankenburg são: «sistema de representação, parcialmente inconscientes e grandemente contraditórias entre si, que orientam as pessoas, também os juizes obviamente, na sua actividade quotidiana. Mas, o certo é que podem exercer um efeito bastante forte sobre as instãncias informais e formais de controlo, que são sensíveis a um vasto conjunto de acções desconformes com os padrões de sociedade, como a embriaguez, a delinquência, a demência, a toxicodependência, a prostituição e o problema dos "serial Killer".

Quando o juiz pune, uma só emoção deve vibrar na sua voz : o desgosto que sente de se ver obrigado a recorrer a esta extremidade....

Pena é o facto de ver tantos juizes cuja emoção de punir não se vislumbar na vibração da sua voz nem no brilho do seu olhar, como se os arguidos não tivessem, como eles, um coração...quantas vezes de "papel"...

Portugal, algures nos Alentejo profundo - onde cigarras numa grande sinfonia marcam o compasso dos dias - , 25/06/06

PAULO

22 Junho 2006

O CARÁCTER PATALÓGICO DO EMPREGO DA FORÇA PELO PODER


O acatamento espontâneo da ordem estabelecida, a normalidade não coerciva do exercício do poder, tem por reverso, e corolário, o carácter patalógico do emprego da força.
No ambiente de um departamento policial, ou de um tribunal, ou de uma cadeia, poderá parecer estranha a afirmação de que o emprego da força tem carcácter patalógico, em qualquer sociedade. Conforme se estranhará, no ambiente de um serviço hospitalar, ouvir dizer que o homem é um ser normalmente escorreito, que não carece de serviços clínicos, ao menos curativos. A familiaridade com a patologia torna remoto o sentido de normalidade.
Mas, assim como se terá uma visão deformada do homem partindo da sua patologia, também não se entenderá nem a sociedade, nem a ordem, nem o poder, nem o direito, na base dos aspectos patalógicos que respeitam ao emprego da força, da coacção. Mais ainda.Às sociedades, à sua ordem, ao seu poder e ao seu direito, repugnam radicalmente, todas as soluções, violentas, não pacíficas. E só recorre a elas em casos extremos. Ainda em desfesa do equilíbrio, da harmonia e da paz.
Todavia...para meu lamento, constato que tais mecanismo sociais vão, paulatinamente, sendo insuficientes para acudir atempadamente aos novos desafios: terrorismo, "queda" de valores como o sentido da vida, da camaradagem, amizade, coesão de grupo..etc..Então o que fazer?
22/06/06
Paulo

URBI ET ORBE

Hoje, quando todos duvidam de tudo, mesmo de Deus e do diabo, quando rareiam os defensores do património ancentral dos povos, ergue-se o Papa Bento XVI para nos lembrar, urbi et orbe, que «o diabo existe»!...Se existe! Simplesmente mudou de figura: O diabo é hoje um homem sem rosto: carapaça inox em vez de pêlos e circuitos integrados em vez de chamas. A tecnologia a bomba nuclear e o terrorismo de "estado" são o diabo do nosso tempo. As suas acções não variam no fundo, relativamente às do diabo folclórico: cerceamento das liberdades individuais, solidão, medo do outro, ameaça de aniquilamento apocalíptico. Sem poder contar com Deus, o Homem encontra-se face a face com o seu próprio demónio, tal como o aprendiz de feiticeiro que construiu e armou o seu monstro, sem contudo ter meios para o controlar e dominar.

22/06/2006

Paulo

19 Junho 2006

"ÁS VEZES OS OLHOS SÃO AS PALAVRAS QUE O SILÊNCIO NÃO DIZ"


Ás vezes os olhos são as palavras que o silêncio não diz. Esse silêncio que se esconde no peito dos homens e que parece renascer a meio da noite. Mas os deserto mais longo são os "gritos" dos ecos que tecem vozes e acordam a solidão. É por isso que às vezes os ecos não têm morada e se confudem com as cigarras que ditam o compasso dos dias. Os seus cantos recordam sedes antigas, um cheiro a urze que apetece ser rio e viagem. No coração dos "filhos de um deus menor" dizer o poema é lançá-lo ao vento, enquanto se afoga a solidão num "abraço" de esperança...pois no peito de cada homem baila o desejo de ser pássaro, uma fantasia de Sol onde o sonho nunca deixou de brilhar...

PAULO
19/06/2006

18 Junho 2006

Incendiaram-me a infâncias


Incendiaram-me a infância
Biblioteca de sonhos

Com gotas de orvalho
Violaram a Primavera

E eu cresci a crédito
No eco das noites brancas
A lembrar-me do coro das velhas

(Paulo - 18/06/2006)