29 Setembro 2006

"UM ACIDENTE"


Zup!!!
E tudo aconteceu num milésimo de segundo.
Vidros pelo chão,
chapas batidas, olhos curiosos,
num espanto geral.
Lá dentro, uma criança chora
chamando pela mãe inconsciente.
mas, o espanto é total,
e, a criança chora.
Mamã, e tudo é esquecimento...
Alguém grita então:
chamem alguém, os bombeiros,
a polícia, um médico...
No interior da viatura
um corpo de mulher jaz,
vítima de um atroz acidente.
Sangue, pedaços de carne,
vidros partidos e roupa rasgada,
uma carteira, fotos do marido querido,
num charco infalível e vermelho.
E uma criança chora,...
Não há braços, não há carinho,
para uma pobre criança perdida
no meio de tantos estragos.
Afastem-se. Saiam daqui!
(aquele homem é corajoso, diria alguém)
E uma criança chora,
já sem vontade, já sem forças.
Depois, estreitada naqueles braços fortes,
já não chora,
já não diz...MAMÃ...
porque...
acabara de falecer.
PAULO

23 Setembro 2006

"CONHECER A POLÍCIA PARA MELHOR A COMPREENDER"


Numa época de acelarada mutação civilizacional, caracterizada pela alteração estrutural das economias, pelo receio do apocalipse financeiro, pela emergência de novas tecnologias, pelo aumento de crimes como o tráfico de influências, branqueamento de capitais, corrupção, peculato, burla informática, fraude ao IVA, abuso de confiança, crime fiscal, contrabando organizado, etc..., assume particular importância e significado uma reflexão sobre a problemática do relacionamento dos cidadãos com a Polícia.
Paradoxalmente a Polícia é ainda hoje uma instituição desconhecida da generalidade dos cidadãos. Na realidade é um paradoxo que, tendo a Polícia, por imposição constitucional, defender a legalidade democratica e garantir a segurança interna e os direitos dos cidadãos, estes tenham permanecidos numa negligente atitude de indiferença perante a natureza, contéudo, forma e condições da actividade policial e "abondonados" pelo poder politico.
Tal distanciamento, a meu ver, é gerador de incompreensões, suspeições e preconceitos que afectam inexoravelmente o relacionamento entre a polícia e o cidadão. Este, quando vítima, tende a exigir do funcionário polícial qualidades «divinas» de omnipresença, omnisciência e omnipotência, mas quando na situação de infractor solicita a indulgência máxima contra a própria lei e mostra-se, tantas vezes, um julgador parcial e impiedoso perante qualquer falta daquele.
O trabalho polícial, que acompanhei no âmbito de um trabalho de investigação criminal, é um trabalho onde o risco de irregularidades é elevado, quer porque se opera no âmbito de um ordenamento jurídico em constante mutação e hipertrofiado, com normas pouco claras, ambíguas e instáveis, quer porque as ocorrências comportam um acentuado grau de dinamismo e incerteza. Se comparássemos a vida em sociedade a um vulcão em actividade, poderíamos dizer que a Polícia trabalha com a lava ainda incandescente, ao passo que os restantes operadores sociais (juízes, Ministério Público, Inspecções...) agem sobre a lava arrefecida ou em vias de arrefecimento. Os funcionários policiais actuam na linha da frente, submetidos às maiores pressões psicológicas, aos maiores riscos, lá onde se estabelecem as fronteiras do medo, da dor ou da exclusão social, lá onde qualquer erro pode ser fatal, lá onde a linha que separa o herói do vilão depende tantas vezes da sorte.
Todos sabemos que se o grau de compreensão dos cidadãos diminui, baixa inevitavelmente o nível de risco aceitável, surgindo mecanismos de autodefesa (com o recurso sistemático ao caso procedente e o apego à rotina, ao costume, à cobertura hierárquica) ou situações de passividade, com efeitos gravosos sobre a ordem e tranquilidade pública.
O funcionário policial não é um exorcista de todos os males, nem pode expiar todas as desgraças, mas deve estar preparado e ter disponibilidade de tempo para ouvir o cidadão que se queixa: a esquadra/posto polícial deve ser um posto de abrigo no mar agitado da sociedade.
A desobediência à autoridade é muitas vezes acompanhada por um profundo menosprezo pelo direito e logo das condições que permitem a liberdade, num culto exacerbado ao egoísmo mais pernicioso, craindo climas de desresponsabilização e sentimentos de impunidade, que sempre estiveram na base de desvios no uso da força.
Por isso, a relação da Polícia com os cidadãos é determinante para a harmonia social. A deferência e o respeito mútuo que estão associados á boa convivencialidade, devem, penso eu..., por maioria de razão pontificar no relacionamento entre o Cidadão e a Polícia.
«É tempo de dispersar as nuvens, quebrar o gelo, afastar as ilusões e os receios, dissipar os mal-entendidos, eliminar as suspeições. O nevoeiro deve levantar-se para que o Sol brilhe.» (livro das lamentações)

20 Setembro 2006

" O VÍCIO É TRISTE... "


(*) « Existe um ser apenas que eu possa conhecer inteira e constantemente, sobre o qual o meu juízo pode ao menos ser seguro. Um só! Desprezo-o! e esse ser ... sou eu». (L,Espoir en Dieu).
(*) "O homem vicioso pretende do prazer que ele satisfaça, não só as necessidades limitadas dos orgãos, como o animal, mas a sede infinita do seu coração...Se ele dá tudo, é para receber tudo e portanto, à medida que se vai entregando mais à paixão, vai-lhe pedindo uma ração sempre crescente de prazer, e isto até ao infinito!
Mas, fatalmente também, acontece que, à medida que a paixão se exaspera, vai dando uma ração cada vez maior...Porque, ao passo que a ideia torna cada vez maior o abismo insondável do nosso coração, os órgãos, pelo contrário, sendo materiais, estão sujeitos, como toda a matéria, ao limite e à usura. Embotam-se; a sua actividade decai, sobretudo quando o vício lhes pede demasiado e os desequilibra. O prazer esvai-se, pouco a pouco.
E eis então o vicio preso na sua própria armadilha. A sua fome vai aumentando, à medida que a presa diminui, e assim, fatalmente, aumenta sempre a distância entre a realidade e o sonho...eis, para o homem, a medida da sua tristeza.
O langor carnal não é felicidade, mas sim uma ilusão pouco duradoira de felicidade!
A embriaguez é de tal maneira rápida, que o prazer está menos na sensação brusca desta própria satisfação, dessa «epilepsia brevis», que nos pródromos. Depois, imediatamente depois, vem o aborrecimento cinzento, porque o pecado é, nas suas consequências, essencialmente aborrecido e monótono!
É o aviltamento de tal maneira evidente, que não é passível iludir-se a si mesmo. É o desprezo de si mesmo, tão claro que se exclama, como em Atlantide o capitão Saint-Avit, depois de ter cedido à sua paixão por Antinea : «Não sou mais um ser falido».
«No fundo dos prazeres vãos, que eu chamo em meu auxílio, experimento um tédio tal que me sinto morrer». (P. Bourget, Le tribun) ".
(*): Cartas que recebi (em 1998) de alguém amigo (?) que, tal como ele, sempre quiz que eu fosse padre. Hoje, aos 27 anos, é um jovem padre.
Paulo

19 Setembro 2006

"AUSÊNCIA «PERIGOSA» DA EFICIÊNCIA E EFICÁCIA DA JUSTIÇA"

Agora que tive consciência de que sou uma pessoa - não um indivíduo -, posso perceber que a minha angústia, o meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra as minhas verdades. Porém... sei que isso é autenticidade.
Agora que tive consciência de que sou uma pessoa, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que aconteceu contribuiu para o meu crescimento. Sei que isso é...amadurecimento.
Agora que tive consciência de que sou uma pessoa, desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei muitas vezes. Sei que isso é...humildade.
Agora, que sou um "homem novo", compreendo que há algum exagero em visionar um desrespeito generalizado das normas, que poderá ser entendido como abrangendo todas as normas. Uma análise serena - nesta condição de "homem novo" - das situações históricas do desrespeito de todo o direito, às vezes descritas em termos apocalípticos, parece, salvo melhor opinião, revelar que, apesar de tudo, o desrepeito, que actualmente se constata, visou apenas, ou sobretudo, certas normas, e não todas elas. Esse desrespeito, originado, tanto quanto me parece, na debilidade do poder, no seu desprestígio, na incompatibilidade entre muitas normas legislativas e os usos, ou as exigências, das sociedades, afinal, mostra-se relativamente circunscrito. Porque se multiplicam os assaltos, os roubos, os homicídios, os desacatos, a violência doméstica, os crimes economicos, a corrupção, etc..., em termos de anormalidade, cria-se um clima de pânico, de terror ou , no mínimo, de incertezas. Mas esse mesmo terror, esse mesmo pânico ou incertezas, revela que a generalização do desrespeito das normas é relativo. Os aterrorizados, os que entram em pânico ou têm incertezas, constituem maiorias que, tendencialmente, continuam a cumprir as normas. Ao menos as normas fundamentais de convivência, enraízadas no espírito dos povos.
Contudo, - é o perigo actual - basta a frequência das ilicitudes, para além de certas margens, para que a vida social se torne inviável. É suficiente que bandos de criminosos percorram uma cidade, desafiando todas as leis, sem que as forças policiais, ou grupos de particulares em acção de auto-defesa, tentem sequer detê-los, para que ninguém, excepto os próprios criminosos, ou nem esses, se sinta seguro quanto à sua honra, à sua vida, à sua integridade física e ao seu património.
A quebra da ordem pelo desrespeito generalizado das normas, raramente é definitivo. Mas, como todos sabemos, o restabelecimento da ordem costuma ser lento, processando-se, na maior parte dos casos, através de múltiplas hesitações e transigências. Importará, no entanto, distinguir o restabelecimento formal da ordem, pela força, do seu restabelecimento substancial, institucional, que cabe sempre a um delicado processo de revisão do plano normativo. Até porque nunca é por acaso que a norma se quebra. O desembainhar das espadas tem virtualidades bastantes para fazer cessar a desordem das ruas. Mas só a revisão do direito conduz ao verdadeiro restabelecimento da ordem. Pela paz jurídica instaurada.
A verdade é que, actualmente, se verifica uma ausência "perigosa" da eficiência e eficácia da justiça, uma enorme falta de certeza, segurança e imparcialidade na sua aplicação, factos, estes, que geram o afastamento do respeito pelas normas juridicas, dos padrões éticos e das regras de cortesia, criando, assim, sentimentos de impunidade que, a continuarem, podem fazer quebrar a ordem de modo a que o Estado, pela sua organização preventiva e repressiva, a não consiga restabelecer.
Não se vislumbra, a meu ver, que, actualmente, o Estado - com o devaneio do "simplex" e a "luxuria" da sua imagem "virtual" - esteja atento ao que referi. Quando se verifica um deploravél estado da justiça em Portugal e umas forças de segurança, esquecidas, desmotivadas e pouco, ou nada, dignificadas, então estamos na presença de sinais inequívocos de que urge fazer alguma coisa para além dos pactos entre partidos políticos e da criação de expectativas, infelizmente, quase sempre, frustadas.
Diz-se que o Estado de Direito reformulou o homem, tirando-o do seu «estado natural», ou seja, para atenuar a desorganização, a falta de harmonia, enfim, a violência entre os homens, mediante a criação de um contrato social que possibilita a neutralização das tendências negativas do homen. Em troca, esses grupos desagregados e desorganizados deveriam prestar obediência ao Estado de Direito.
Será que a sociedade, através da formulação do Estado e dos actuais distintos sistemas (político, social, justiça ...), consegue alcançar a segurança, a protecção dos cidadãos bem como a ordem e tranquilidade públicas?
Paulo.

15 Setembro 2006

" ÀS PRISÕES SÓ CHEGAM OS DELINQUENTES FRACASSADOS! "


A violência aparece inscrita fundamentalmente no sistema de decisões políticas em que nada tem a ver com decisões individuais. Está presente nas estruturas económicas e sociais, nas leis que a organizam, nos aparelhos do controlo, incluindo os ideológicos que as mantêm e legitimam.
Desta forma, mesmo em tempos de paz, a socialização implica uma espécie de coabitação com a violência vinda de cima, seja estatal ou de certas empresas, instituições (militares, religiosas), e perto da qual a violência individual é, muitas vezes, menor.
A forma mais eficaz para combater a violência não pode ser outra do que a coerção exercida pelo Estado. A impunidade do Estado e de determinados grupos dominantes leva a uma nova forma de violência, a falência do sistema penal...agora em discussão.
Actualmente, parece que o Estado em primeiro lugar define o delinquente e depois institucionaliza-o. Numa das minhas recentes visitas à população prisional em Portugal, verifiquei que, se olharmos com atenção, os presos parecem tirados do mesmo modelo, pela forma de vestir, modo de caminhar e falar. Como se todos estivessem ali por qualquer «tara» hereditária ou genética. São sempre os mesmos!!!
Virifiquei que nas prisões existem outras pessoas, também elas imutáveis. São os funcionários e sobretudo os quardas prisionais, também eles presos, mas...do outro lado da fronteira, não menos severa...
O denominador comum reside no facto de estes grupos humanos - presos/guardas prisionais - que se vêm como inimigos potenciais, que se matam e golpeiam brutalmente nas revoltas e motins, pertencem ao mesmo estrato humano, no que se refere à marginalização social e subculturização com tudo o que isso tem de cumplicidade.
A filosofia subjacente às prisões é uma filosofia punitiva que robustece as convicções reaccionarias através da afirmação de que as prisões são o lugar para estar mas estar mal. Como se um detido preventivamente não seja inocente até à proclamação da sentença!!!
As condições precárias - que são muitas - da maioria das prisões e, sobretudo, a violência inscrita na sua vivência, torna-se um factor acrescido de castigo para os reclusos mesmo os preventivos (alguns inocentes).
Mas o mais grave é o facto de nem todos os criminosos estarem nas prisões e dos que lá estão, em prisão efectiva, alguns serem inocentes...
Para meu desassossego ainda conclui: Às prisões só chegam os delinquentes fracassados!!!
Paulo

12 Setembro 2006

"O QUE FAZER DOS SEMINÁRIOS ? " (*)

... Os tempos avançam...O concilio de Trento já lá vai...
Até houve, depois deste, um I e II concilio do Vaticano (este último considerou a grande abertura da Igreja ao Mundo)!!! Uma inovação ao tempo foi a origem dos seminários...mas...e hoje? Tem fundamento a existência de um "casarão" a acolher dois ou três "gatos pingados" com as regras (quase) tridentinas mediante as quais lhes é (quase) proibido ver o Mundo tal como ele é?.
Assim, os jovens ordenados que saiem dos seminários caem no risco de:
1) Esperimentarem aquilo que lhes proibiram durante dezenas de anos, só que com o agravante de já serem ordenados...
2) Serem pastores anti- sociais que vivem diáriamente a sua frustração numa relacção ódio-pena com os fiéis...
3) Não conseguir o equilibrio entre a realidade hódierna com o que acreditam e anunciam...
Estes seminários,do clero, de (de) formação, invadida por certos tabús, ainda abarcam termos como: "Sr. Reitor","Padre-Prefeito", "castigo/disciplina", "proibido",etc...Parecem algo descontextualizado da cultura, realidade e mesmo da missão de Jesus Cristo para cada jovem...Mas os homens, com as suas ideias e linguagem, parece quererem opôr-se à "bela" linguagem de Jesus Cristo, baseada na liberdade, felicidade e realização pessoal em Jesus...
Há crise de vocações?...Mais parece haver crise de ideias purificadas e "olhos" limpidos para conseguir outra forma, mais inovadora, de discernir e apoiar o crescimento vocacional de tantos jovens, dispostos a entregar-se a Jesus Cristo...
Não é justo colocar tais regras a miudos de 12/13 anos que ainda vivem agarrados ao seio materno e exigir-lhes o comportamento que por vezes nem o próprio "Reitor" o tem...
É necessário que se diga, com verdade, - e não esconder ao Mundo - que o celibato do clero católico constitui uma excepção no leque das religiões e confissões conhecidas, monoteístas e politeístas, só tendo equivalente na Magna Mater. A razão que a igreja avança para esse costume (que não tem origem bíblica) é a necessidade de os clérigos se dedicarem exclusivamente à Igreja - a Igreja Mãe - hoje, salvo melhor opinião, não faz sentido a pratica de tal costume pois nem é um imperativo das sagradas escrituras - .
A religião é um produto da cultura e caucionam-se circularmente. À semelhança do processo de autocatálise em que o organismo segrega a substância adaptada para se manter - cria a glândula para se lubrificar, gera o óleo com que se oleia - a cultura produz uma religião para lhe servir de justificação nobre e de argumento divinino; engendra um deus à sua imagem - e não ao contrário - que passa pelo seu legislador, defensor e juiz.
Mas...o que fazer dos seminários e do que se passa na clandestinidade das suas paredes?
Paulo
(*) Parte retirada daqui: http://santoherege.blogspot.com/

11 Setembro 2006

September 11, 2001

«Em cada grito de cada homem, em cada grito soltado por uma criança, em cada voz, em cada anátema, ouço o ruido das correntes que forja o espírito» (William Blaker).
«As leis torturam-te porque és culpado, porque podes ser culpado, porque eu quero que sejas culpado.» (Cesare de Beccaria)

10 Setembro 2006

freddy mercury & montserrat caballé - Barcelona

Facetas, espelhos onde nos revemos, sempre com o espanto de nos surpreendermos magicamente favorcidos. vozes inconfundiveis em que nos projectamos e através das quais divulgamos pelo mundo fora, os mais secretos dos nossos segredos,os mais esquivos os mais teimosos dos nossos silêncios, tudo quanto de mais ciosamente vínhamos guardando, sem sequer o sabermos, ao longo de gerações emudecidas, quando muito titubiantes...

09 Setembro 2006

" OS LIMITES IMPOSTOS À LIBERDADE DE JULGAR"


Já nos séculos XVII XVIII se esboçou uma forte tendência orientada no sentido de equiparar o Juiz a funcionário administrativo. Actualmente, sempre que surge um político importante nas "malhas" da justiça, logo se pretende pôr em causa os Juizes, Tribunais, Código Penal, Código do Processo Penal e a lei fundamenta (Constituição). Estas manifestações "tirânicas" ocasionais do poder político estão na "linha " de retirar a independência das magistraturas judiciais em relação à política, aos políticos, às partes e às pressões populares, ou da opinião pública, ou da opinião que se publica, muitas vezes estipendiada pelos interessados. Os condicionalismos actuais, debilitando o relevo, intrínseco e extrínseco, do poder judicial, insuficientemente acarinhado e protegido pelos detentores da força material, têm agora, mais que nunca, oposto as classes políticas - fazendo pctos entre si - às magistraturas judiciais. É, a meu ver, uma luta entre poderes, que já "saltou" dos "corredores secretos" para a "praça publica", e que revela a debilidade da separação de funções nos quadros de uma mesma entidade. As classes políticas tendem a reduzir a termos disciplinares, de cariz administrativo, e, afinal, na dependência de forças ocasionais, a responsabilidade dos juizes e retirar-lhes direitos adquiridos que tradicionalmente os guindaram ao prestigio e respeito da sociedade civil. Os juizes, ora esvaziados de poder e independência, devido às pressões de ordem política, estão a ser "empurrados" para a "vulgaridade" de funcionários administrativos do Estado com todas as consequências gravosas dai advinientes.
Assim, será sempre de recear que, reduzindo-se a independência, a liberdade, a dignidade, dos Juizes, a fórmula desprovida de conteúdo, mais dificilmente as sociedades se aproximem do sentido intemporal das exigências de justiça e mais dificilmente se pode por em causa a permanência no poder dos governantes corruptos ou controlar crimes económicos-financeiros organizados onde se incluiem a corrupção e a fraude que geram pobreza, impedem o desenvolvimento económico, provocam injustiça social e são responsáveis pela degradação do sistema político das instituições públicas.
Paulo

07 Setembro 2006

Amália Rodrigues - Povo Que Lavas No Rio - 1961

«Eu tinha um tipo de magnetismo que ainda hoje tenho.Chego a um palco qualquer e as pessoas estão imediatamente comigo» (Amália Rodrigues 1920-1999)

"O HOMEM É UM FOLCLÓRICO"


Entrevista ao jornal "Diário de Notícias" (DN) de 18/04/1984 com o Professor Doutor Moisés Espírito Santo(MES), catedrático de sociologia das Religiões, Professor da Universidade Nova de Lisboa:
(...)
« DN - O que é o machismo?
MES - O machismo é uma das provas de que o homem é um tigre de papel, sem poder nenhum. É um folclórico.
DN - Não são só manifestações exteriores?
MES - Os psicanalistas dizem que o machismo é uma reacção do homem contra a imagem que ele interiorizou duma mulher, de uma mãe todo-poderosa. Isto é, quando a mãe lhe imprime uma imagem muito forte, faz o filho à sua maneira. Então, chegando à adolescência, ele combate contra essa imagem feminina que tem dentro de si, digamos uma espécie de andrógénio, entre aspas. Então, toma atitudes exteriores maschistas, de grande conquistador, só ele é que é bom, as mulheres não prestam para nada. Passa a ter reacções antifeministas, para se livrar da imagem que tem dentro de si. O sociólogo Roger Bastid fez um estudo sobre o machismo e constatou que este é muito mais forte nas famílias monoparentais, em que a mãe é a única autoridade da casa. Caso dos pais emigrados, mortos, etc.
DN - Mas é sabido que os mais machistas são os que se deixam «levar» facilmente pelas mulheres.
MES - É fantastico o condão que têm as mulheres para «aldrabar» os homens...
Por exemplo, o namoro. A mulher finge que foi conquistada, quando é ela que conquista. Basta um sorriso, um olhar e o rapaz «já está a dar sorte». Ela é que seduz. Durante o namoro é submissa. Não lhe interessa se o namorado é vagabundo, se é estróina. Não quer saber de nada. Então os homens dizem:«A minha moça é porreira. As mulheres são todas umas parvas, mas a minha é diferente». Todos dizem a mesma coisa.
DN - E depois de casados?
MES - Aí começa logo a haver disputas pelo controlo da casa, do dinheiro, de tudo. O rapaz fica completamente castrado. Já não pode sair de casa à noite. Perde completamente o contacto com os amigos habituais e sente-se um segregado. Caiu numa autêntica armadilha. e de tal maneira isto é assim analisado pelos seus amigos que estes dizem «que ela lhe deu uma dose amorosa», o que significa que lhe fez um bruxedo».
Será que nada se alterou nesta matéria passados que foram 22 anos depois desta entrevista?
Vou pensar duas vezes antes de casar e o namoro, esse, vai mesmo ficar em crise...

Paulo

07/09/06

03 Setembro 2006

" O MEU INCONSCIENTE..."


Há muito que procuro "sondar" o meu inconsciente, esse capítulo da minha história que está assinalado por um espaço em branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado.
Mas, na minha procura - mania da investigador - já tenho alguns dados: a verdade pode ser reencontrada; na maior parte das vezes ela está escrita algures. A saber:
- nos momentos: e isto é o meu corpo, ou seja, o núcleo da "neurose" onde o sintoma histérico mostra a estrutura de uma linguagem e é decifrado como uma inscrição, uma vez recolhida, pode sem grave perda ser destruida;
- nos documentos, de arquivos também: e são as recordações da minha infância, tão impenetráveis como eles, quando não conheço a sua proveniência;
- na evolução semântica: e isto responde ao sortimento e às acepções do vocabulário que me é particular, assim como ao estilo da minha vida e ao meu carácter;
- nas tradições também, ou até nas lendas que, sob uma forma heroicizada, vinculam a minha história;
- nos vestígios, no meu «blog», enfim, que são conservados inevitavelmente pela distorções exigidas pelo ajustamento do capítulo adulterado aos capítulos que emolduram, e cujo sentido será restabelecido pela minha exegese.
Dar-vos-ei alguma novidade se vos disser que esta investigação, à qual consagro desde hà algum tempo vincada atenção, me deu a surpresa de autênticas descobertas?

01 Setembro 2006

"ENCONTRO DE SOLDADOS"


É especilamente durante os encontros nocturnos que o número é muito menos importante que a superioridade pessoal. Não é com o inimigo, é com nós próprios que temos de nos medir.
Certa noite, em uma situação destas, encontraram-se dois soldados, um dos quais encarou o outro, perguntando-lhe inopinadamente: «estou convencido que estás com medo !?». E o outro vá de responder: «Ah ! meu velho, se tivesses medo como eu, há que tempos já tu terias deitado a fugir!».
Inútil perguntar qual dos dois era mais valente. No perigo, o que importa únicamente, é a atitude que conseguimos tomar perante nós mesmos.
PS: Também há políticos que sabem "fugir"...
" Pode mesmo afirmar-se que o barómetro de um verdadeiro Estado de Direito Democrático está na maneira como as polícias actuam relativamente aos cidadãos" (Acordão do Supremo Tribunal de Justiça de 22/09/04).
Paulo