«Tal como as crianças tremem e receiam tudo na escuridão profunda, também nós por vezes receamos na luz o que não há mais razão para recearmos - as coisas que aterrorizam as crianças no escuro...» (Lucrécio, Acerca da Natureza das Coisas). Em Portugal, um sentimento de impunidade deixa vislumbrar a possibilidade de vir à acontecer que, embora minados os alicerces morais e de civilidade do estado social, este se mantenha, por algum tempo, na base do receio das punicões estatuais, que garantirão, é certo, o chamdo «mínimo ético», definido pelo poder. Desde que, pela sua dureza, ou pela solidez da rede preventiva estabelecida, as sanções legais ainda sejam, efectivamente, temidas - o que duvido -. Não sendo assim, a previsão de que as infrações ficarão impunes - Ex: «Casa Pia», «Apito Dourado», «Felgueiras», «Entre-Os-Rios» - começa por alargar a esfera da marginalidade, dentro do Estado. E, por autodefesa contra os marginais, ou por natural propensão dos homens para claudicarem, lesando o seu semenhante (Zé-Povinho) e renunciando ao próprio aperfeiçoamento, alastrará, na minha opinião, a convicção de que tudo é permitido. Porque não há "Deus" e porque, sem apoio numa "ordem divina" ou "natural", o próprio Estado renuncia às suas funções - já houve altos governantes que largaram o governo e "fugiram" (Durão Barroso, Guterres...) -, duvidando da legitimidade, do fundamento, para exercê-las. Também não haverá castigos humanos... - quantas vezes, ao invés, há promoções politicas e/ou profissionais... -. Há quem defenda - eu não! - que essa convicção de que tudo é permitido passa. Penso que, actualmente, a teoria de «hobbes», de que "o instinto de conservação dos homens» obriga a ultrapassar esta situação, não colhe. Até posso compreender a teoria de «hobbes», mas..., para que o "instinto de conservação dos homens" possa ter alguma influência no terminús da situação, primeiro terão que existir desordens, guerras, mortes, que geram profundas involuções no processo cultural dum povo, forçando-o a reencontrar-se, no meio das maiores ruínas e misérias dos corpos e dos espíritos. Eu, pessoalmente, não gostaria que fosse este o rumo de Portugal... Paulo |