A abediência das normas sociais resulta muitas vezes, sem dúvida, do temor de sanções. Ainda que estas não se situem no plano da essência do direito e da ordem social. Será discutível se o temor respeitará à espontaneidade e à generalidade da obediência. Argumentar-se-á no sentido de que quem obedece por temor não o faz espontaneamente, por vontade própria, mas impelido por forças exteriores. E talvez se acrescente que, não derivando a obediência às normas, para a maioria dos seus destinatários, de qualquer temor, este será também alheio à generalidade da obediência. O temor respeitaria apenas a uma minoria, que, afinal, não cumpre espontaneamente. É forçada a cumprir.
A questão parece ser bastante mais complexa. Considerando o processo evolutivo do fenómeno da obediência às normas, não deverá excluir-se que o temor, como um dos factores dessa obediência, se tenha mesclado aos outros - educação, honestidade, etc. Quer dizer que, na base do prossuposto de que o homem não é, naturalmente, originariamente, bom, não derivando os seus vícios apenas de uma corrosão social - pressuposto que seria ocioso pôr aqui em discussão - terá de aceitar-se que a sua malícia natural tenha sido limitada por temor. Ou temor das crenças nos seus deuses ou temor dos outros homens, especialmente dos chefes, dos detentores do poder, dos amigos, dos vizinhos, etc... Esse mesmo temor seria removido, ou, ao menos, reduzido, pela continuada preocupação de manter uma conduta recta. E, atravez dessa preocupação continuada, arrastada por gerações, o temor acabaria, para muitos, ou para quase todos, por dilui-se, precisamente pela consciência de se observar essa conduta recta, ditada na base da educação moral e da honestidade.
A verdade é que a moral e a honestidade, nos dias de hoje, é uma miragem. Veja-se a conduta , com malícia, dos políticos, das gentes do futebol, do poder local. Basta estar atento às informações que nos chegam de todo o mundo, para verificar que as condutas rectas e a moralidade estão longe de contribuir para uma obediência espontânia com base na educação e/ou na honestidade.
PAULO




