25 Fevereiro 2007

" A OBEDIÊNCIA RESULTANTE DO TEMOR..."

A abediência das normas sociais resulta muitas vezes, sem dúvida, do temor de sanções. Ainda que estas não se situem no plano da essência do direito e da ordem social. Será discutível se o temor respeitará à espontaneidade e à generalidade da obediência. Argumentar-se-á no sentido de que quem obedece por temor não o faz espontaneamente, por vontade própria, mas impelido por forças exteriores. E talvez se acrescente que, não derivando a obediência às normas, para a maioria dos seus destinatários, de qualquer temor, este será também alheio à generalidade da obediência. O temor respeitaria apenas a uma minoria, que, afinal, não cumpre espontaneamente. É forçada a cumprir.
A questão parece ser bastante mais complexa. Considerando o processo evolutivo do fenómeno da obediência às normas, não deverá excluir-se que o temor, como um dos factores dessa obediência, se tenha mesclado aos outros - educação, honestidade, etc. Quer dizer que, na base do prossuposto de que o homem não é, naturalmente, originariamente, bom, não derivando os seus vícios apenas de uma corrosão social - pressuposto que seria ocioso pôr aqui em discussão - terá de aceitar-se que a sua malícia natural tenha sido limitada por temor. Ou temor das crenças nos seus deuses ou temor dos outros homens, especialmente dos chefes, dos detentores do poder, dos amigos, dos vizinhos, etc... Esse mesmo temor seria removido, ou, ao menos, reduzido, pela continuada preocupação de manter uma conduta recta. E, atravez dessa preocupação continuada, arrastada por gerações, o temor acabaria, para muitos, ou para quase todos, por dilui-se, precisamente pela consciência de se observar essa conduta recta, ditada na base da educação moral e da honestidade.
A verdade é que a moral e a honestidade, nos dias de hoje, é uma miragem. Veja-se a conduta , com malícia, dos políticos, das gentes do futebol, do poder local. Basta estar atento às informações que nos chegam de todo o mundo, para verificar que as condutas rectas e a moralidade estão longe de contribuir para uma obediência espontânia com base na educação e/ou na honestidade.
Hoje, é raro alguém ainda ter coragem de dizer: «quem não deve não teme»

PAULO

23 Fevereiro 2007

Amália Rodrigues

Amália: reflete céus de diferentes tonalidades, nuvens com súbitos raios de sol, clarações rompendo a escuridão, bruma que se afoga em azul, veleiros antigos com marinheiros ceguinhos de choro banhados em mares de saudade e de distâncias indeterminadas, pranto, murmurio, desassossego. Amália: caravela universal que se "refresca" em praias desprovidas de política, gaivota austera e doce que traduz, fielmente a alma de Portugal. Amália ... que, teimosamente "sangrando", sobreviveu à ditadura e à democracia, que escapou ao entendimento comum dos mortais de má-fé.. mas, não à sua condição de "sacerdotista do fado", envolta num xale negro, símbolo da universalidade da magia fascinante do ritual eterno das «canções», mais tristes que há no mundo...
PAULO

Amália Rodrigues

Amália: facetado espelho onde nos revemos, sempre com o espanto de nos surpreendermos com a ressonância universal do milagre das leis do renovo eterno e do signo da inquietude intemporal dos auspícios do génio onde, os mais secretos dos nossos segredos, os mais esquivos ou teimosos dos nossos silêncios titubiantes, se hão-de "render" numa dimensão universal...

Paulo

22 Fevereiro 2007

AMÁLIA RODRIGUES NO JAPÃO: LÁGRIMA


À tua espera, Amália, enquanto o mundo dorme, ficaria, olhos quietos, a cismar... embalando em mim um sonho vão de miragem. E, a meio da noite, uma lágrima, uma lágrima tua...,me deixaria perante a "esfinge" dos desassossegos das planícies enormes onde só os ecos dos teus gritos me arrastariam para um terreno funéreo, onde não se vislumbram as cores todas do "arco-íres", o qual, afinal, eu quero tanto...

PAULO

18 Fevereiro 2007


(...)NUNCA TIVE OUTRAS CONVERSAS COM SALAZAR (...)

" O Zalazar só me ouviu cantar uma vez. Foi em Queluz, na festa da inauguração da ponte sobre o Tejo (1966). Eu estava na América, em Hollyood. Era muito difícil arranjar um lugar num avião. Quem me conseguiu o bilhete foi um português, grande accionista de uma companhia aérea. A inauguração era no dia seis de Agosto. Fui cantar e o Salazar estava lá. Alguém do governo, parece que foi o Franco Nogueira, veio dizer-me que o Salazar queria falar comigo. Fui então falar com o Salazar e disse-lhe que estava muito nervosa. Ele perguntou-me porquê e eu respondi-lhe: "Ó Senhor Presidente, ainda pergunta porquê?". Ele riu e disse: "É por eu cá estar, é?"
Nunca tive outras conversas com Salazar, nunca tive subsídios. Quem me deu subsídios foi o público, nunca precisei de outros. Nem nunca ninguém achou que eu merecesse subsídios. Hoje em dia é que toda a gente tem subsídios para tudo, para cantar, para fazer filmes, para representar, para tudo!. Mais tarde até inventaram que eu tinha um túnel no meu quintal para ir falar com o Salazar, que ia dar directamente à casa dele. Que o Salazar não fazia nada sem me consultar"
(Amália Rodrigues)

"Amália - uma biografia por Vítor Pavão dos Santos, Ed, Contexto-1987"

PAULO

14 Fevereiro 2007

"(...)QUE FAZ O ESTADISTA(...)"

"ORDINARIAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas.Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, politica de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?"(Eça de Queiroz, 1867 "O distrito de Évora").
- Passaram, entretanto, 140 anos..., e?
"Não chorem junto da minha sepultura
Pois...
Eu não estarei lá". (podiam ser palavras de Eça de Queiroz).
PAULO

11 Fevereiro 2007

" AMIZADE..."

" Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos.
Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim...do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje não tenho mais tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida.
Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe...nas cartas que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices.... Até que os dias vão passar, meses...anos...até este contacto se torna cada vez mais raro.
Vamo-nos perder no tempo...
Um dia os nossos filhos - que o aborto não levou - vão ver as nossas fotofrafias e perguntar: "Quem são aquelas pessoas?". Diremos...que eram nossos amigos e...isso vai doer tanto!
"Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!". A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente.... Quando o nosso grupo estiver incompleto...reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo. E, entre lágrimas abraçar-nos-emos.
Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes desde aquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado. E perder-nos-emos no tempo...
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida te passe em branco, que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades..." (Fernando Pessoa)
Agora existem os amigos virtuais - os comentadores dos blogues os que "teclam"conosco no msn-. É nos seus comentários e no "teclar", noite fora, que, às vezes as suas palavras, sem rosto, são silêncios que não sabem dizer de outra maneira, são "sinfonias de fel e sonho" outrora impossíveis de dizer "frente-a-frente", "olhos-nos-olhos"...sem o "filtro do virtual". Identidades estranhas com vozes desfarçadas escondem o "pássaro" que baila no seu peito com o desejo de voar até aos braços de um amigo qualquer. Esta virtualidade, dita o compasso dos nossos dias, exaltada de mistérios e segredos que tecem labirintos de esperança e acordam a solidão quase loucura.
Algemados "das palavras" sem rosto, alimenta-se uma amizade virtual na esperança de não ser defraudada pelo "fantasma" da "crua" realidade: um rosto sem idade ... uma estranha forma de vida. Mas é aqui, no virtual, que a solidão da "planície" e as horas de "embriaguez" fazem dos crentes a voz que dá asas ao sonho.
PAULO

10 Fevereiro 2007

"NÃO SOUBE DO MUNDO..."

(...) Nunca foi à escola,
de sacola ao ombro
nem olhou estrelas
com olhos de assombro.
Crianças iguais às que ele seria,
não brincou com elas
nem soube que havia.
Não roubou maçãs,
não ouviu os grilos,
não apanhou rãs
nos charcos tranquilos.
Nunca teve um cão,
vadio que fosse,
a lamber-lhe a mão
à espera do doce (...)"
(Renato de Azevedo)
"As leis que liberalizam o aborto instigam-no, antecipam-no, tornam-no banal, fazem-no entrar nos costumes. Além disso, delimitam um espaço jurídico para o crime e corrompem a juventude, tornando-a incapaz de destinguir o bem do mal e destruindo-lhe o sentido da mais elementar justiça" (Shooyans)
PAULO

03 Fevereiro 2007

"O PODER DE PUNIR..."

Algumas dúvidas se têm acumulado quanto ao direito de punir. E essas dúvidas são amplamente compreensíveis face a concepções relativistas. Se o mal pode ou não ser, ao sabor de modas "impostas" pela comunicação social e dos pactos politicos concertados, de entendimentos, que vêem, que passam, que se implantam e que se desenraízam, a legitimidade do poder de punir há-de suscitar perplexidades várias. E o processo de despenalização seguido por algumas sociedades contribuíra para essas perplexidades. Se o aborto é punido hoje e não o for amanhã, porque há-de continuar a punir-se a eutanásia, que talvez deixe de ser punível amanhã? Porque razão serão punidos os sacrilégios e as blasfémias nuns Estados e noutros não? Porque têm sido condenadas à morte, em países muçulmanos, mulheres que praticaram adultério?
E, para além das questões abertas pelas oscilações dos contornos da penalização, há-de discutir-se se o homem tem poder para julgar o seu semelhante, destinado a ser julgado, conjuntamente com ele próprio, julgador terreno, no dia do juízo final. Contudo, com a moderação imposta pelas próprias limitações, na certeza de que conforme o critério com que se julgar assim se será julgado, a condição social reclama que se apreciem, se condenem e se castiguem condutas do semelhante. Quando elas perturbam a paz e, com ela, as condições do aperfeiçoamento humano. Mas a apreciação, a condenação e o castigo pressupõem um mínimo de certezas. Não é admissível castigar na dúvida. Sem distinguir o que é direito do que é torto. Assim, na dúvida, nem se há-de castigar, nem repor, restabelecer, as situações abaladas pelas ilicitudes. Porque toda a ilicitude terá apenas um relevo formal, sem substância que permita julgar, aferir. O relativismo não porá em causa apenas o poder de punir, mas todo o direito.
Os fundamentos da punição constituem um dos aspectos do fundamento de todo o direito. Mas apresentam particularidades e são extremamente complexas. Hoje os tribunais andam a uma velocidade demasiadamente lenta e, para agravar esta lentidão, quem detenha grande poder de compra, deitando mão de todo o conjunto de defesas previsto no sistema juridico, alcançará a liberdade ou tão pouco vislumbrará o silêncio entre grades. Há imunidades em Portugal que ninguém se atreve em rever, alterar, revogar. Fazer do "aborto" uma "bandeira política" é, no mínimo, um ultrage à dignidade da pessoa humana.
As penas puramente utilitaristas, reduzindo o "culpado" a mero objecto instrumental, desumanizam-se por completo; porquanto, realmente, perdem sentido humano e ético. Tornam-se medidas de conveniência política e/ou outras.
PAULO