31 Julho 2007

"«PRATELEIRAS» DE PALAVRAS"

" A vontade é, em síntese, uma força, a maior das forças, com a qual nós dominamos e vencemos todos os obstáculos que nos antolhem. Ter vontade é saber dizer «eu quero» com energia. Ao contrário das ideias que são forças em potência, as palavras são já ideias em actividade. Dizer «eu quero» implica já a noção da execução próxima duma ideia concebida, deliberada, decidida".
"A coragem faz-nos suportar o sofrimento ou a injúria, e a enfrentar o perigo, mantem-nos fieis aos nossos princípios, encaminha-nos na rectidão do nosso dever quaisquer que sejam os obstáculos".
(Maria -nome fictício-)
Foram estas as palavras da Maria (nome fictício) que conheci virtualmente e, depois, acabei por encontrar nas férias ora terminadas.
A Maria foi a minha «grande amiga» virtual durante muitas noites da última Primavera. A sua vontade determinou o meu primeiro encontro com origem no virtual. Confesso que estava convencido que a Maria era uma miúda da minha idade, facto que me «obrigou» a preparar detalhadamente o "encontro real de praia". Afinal a Maria, nos seus sessenta e muitos anos, procurava alguém da idade do seu único filho falecido em 2005, num acidente de viação.
Queria apenas falar!
Por momentos faltaram-me as palavras. Comecei uma ladainha só para os meus «botões»: Mãe...puríssima...Mãe castíssima...Mãe imaculada...Mãe intacta...Rainha dos anjos...Rainha das virgens...Rainha concebida sem pecado...
Mas da mesma maneira que não se tem o direito de conservar uma estampa má num álbum escondido, também se não pode conservar voluntáriamente um fantasma mau, no álbum secreto da memória. Assim, noite após noite, recebi «lições de filosofia». Ouvi, atentamente, prateleiras de palavras, lições de filosofia, ética e afins...
A Maria, finalmente, teve o seu "filho" por perto. Que a ouviu atentamente e...,murmúrios parcendo virem do céu, testemunharam, claramente, a ilusão mágica de um «filho» de carne e osso representado por mim.
Não encontrei aqueles amores escaldantes de Verão nem a «loucura» das noites pejadas de «copos» e corpos «famintos» de prazer mas... encontrei a Maria, uma vontade de ferro.
Não encontrei um daqueles amores que nascem súbitamente: um olhar, um encontro, determina o «incendio». Encontrei a Maria, uma amizade onde a simpatia física não é necessária, nem suficiente, nem absolutamente essencial...
Paulo

20 Julho 2007

"FÉRIAS...!?"

Voltarei aqui em Agosto de 2007. Vou de férias.
Por esse mundo fora, levantam-se gravíssimos problemas, próprios da situação delicada que a humanidade - sempre ansiosa de progresso - presentemente enfrenta.
certos desses problemas interessam às grandes comunidades em que a sociedade se vai agrupando; outros dizem respeito a interesses de escala nacional que, com maior urgência, carecem de solução. E para que, designadamente no caso português, possam ser tomadas decisões que reunam o consentimento geral, é indispensável que todos os responsaveis sejam devidamente esclarecidos e informados, sem o que não será possível encontrarem-se em condições de tomar parte na discussão dos problemas que, afinal..., são de todos nós: cerceamento das liberdades individuais, solidão, medo do outro, ameaça de aniquilamento de direitos liberdades e garantias dos cidadãos. O diabo é hoje um «homem» sem rosto: carapaça de expectativas frustadas em vez de pêlos e circuitos integrados. O diabo folclórico tem agora nova "roupagem"; anda pelas feiras, mercados, ajuntamentos e, por vezes, de porta-em-porta.
Deus e o diabo, não são concorrentes, diga-se o que se disser; as suas clientelas é que diferem. Tal como o distinto advogado não aceita defender a causa do plebeu, tal como o médico de nomeada não se interessa pelos clientes pobres, nem o ilustre pensador pelas banalidades deste mundo, assim os «deuses e diabos da política» desconsideram os lamentos dos seus adoradores, as intrigas do bairro, a mesquinhez dos negócios domésticos. Mas é nestas «pequenas» coisa que reside a «alma» do Povo... esse facetado «espelho» onde, teimosamente «sangrando», nos tentamos sempre rever magicamente favorecidos.
É este o pensamento que levo para as «minhas» férias, onde, a meio da noite, algures no Algarve, melhor «fado» não terei.
Ao menos poupem as crianças!. Essas fieis depositárias dos nossos devaneios, frustações, falta de tempo e, sobretudo, de sorrisos «largos» desprendidos de egoismo e desassossegos interiores quando não de «males» ainda maiores.
Paulo

16 Julho 2007

"A RESIGNAÇÃO DOS ADMINISTRADOS"

Só será livre e responsável, plenamente, a pessoa que tem consciência dos actos que pratica e da sua valoração.
Daqui não deverá inferir-se que a generalidade dos governantes - que supostamente têm consciência dos seus actos - não infringem, nunca infringiram, quaisquer normas, morais, de civilidade ou jurídicas. Mesmo os mais escrupulosos, algumas vezes já teriam sido descuidados, impacientes, desatentos, esquecendo até as mais elementares preceitos do código da estrada, da legislação preventiva de incêndios, etc...Afinal todos, sem exluir os mais escrupulosos, infringimos normas menores. Também é certo que muitos, ao verificarem que da infracção de uma norma menor resultou dano para alguém, procuram repará-lo. Até sem esperarem a reclamação do lesado. Nestes casos há uma certa margem de permissibilidade social , fruto de uma tolerância às debilidades humanas...pois é de ilicitos menores que se trata.
A verdade é que a pratica reiterada de tais condutas, às quais se jutaram outras altamente censuraveis, tem «minado» os «alicerces» morais e da civilidade do estado social deixando, por isso, em crise, o mínimo ético defenido pelo Estado. Pois as sanções legais estabelecidas na «rede preventiva» parece não serem efectivamente temidas por certos representantes do Povo.
Parece existir a convicção de que as infracções cometidas ficam impunes. Basta estar atento às notícias que nos chegam diariamente. A referida convicção leva, inevitavelmente, a alargar a esfera da marginalidade, dentro de qualquer Estado. Há quem defenda que a convicção de que tudo é permitido, passa. Até, mais que não seja, pelo instinto de conservação dos homens, que terá influênciado alguns políticos. Mas a verdade é que não passa sem ter gerado profundas «feridas» no processo cultural dos Povos - seja qual for o regime político - , forçados a reencontrarem-se, no meio das maiores ruínas e misérias deixadas no seu quotidiano por "vendedores eventuais de banha de cobra".
Hoje já são poucos , e com razão, que ainda acreditam no apoio de uma ordem divina ou natural, o que em nada ajuda o próprio Estado - que utilizava o "ópio do Povo". Assim, o Estado, sozinho, tende a renunciar às suas funções, duvidando da legitimidade, do fundamento, para exercê-las. Actualmente o povo começa a alarmar-se, face ao afastamento de padrões éticos que já não se circunscrevem aos núcleos tradicionais de marginais, estendendo-se...isso sim, de forma assustadora, a grupos sociais tradicionalmente vinculados por padrões éticos. Até onde irá então, a resignação dos administrados?
Paulo

09 Julho 2007

"SELECÇÃO DOS GOVERNANTES...."

O processo de selecção dos governantes depende, em larga medida, dos regimes políticos. Estes condicionam mesmo esses processos. Mas, ao mesmo tempo, os regimes políticos têm sido adoptados em função das exigências de selecção dos governantes. Assim, ao entendimento para a qual a formação dos governantes deverá ser tão longa que se inicie na infância, corresponderão argumentos favoráveis aos regimes monárquicos. Ou aos regimes aristocráticos que não se mostrem alheios às condições de nascimento. Não obstante, em todos os regimes se têm assinalado faltas graves no que respeita à formação educativa dos governantes, e à sua ulterior selecção. Há monarquias que não têm cuidado da formação dos seus príncipes. E há aristocracias que, confiadas na continuidade dos próprios privilégios e supremacia, descuraram a formação aristocrática dos seus membros. Em compensação, conhecem-se exemplos de regimes democráticos em que, sendo limitada em múmero de membros a respectiva comunidade política, como aconteceu nas cidades gregas, todos os membros dessas comunidades receberam a preparação indispensável para participarem das responsabilidades do poder. Mas também há regimes democráticos, de comunidades muitos amplas, em que o facto da maioria dos seus membros não ser analfabeta já é uma conquista . É certo que os regimes qualificados como democráticos geralmente têm-se limitado a conceder a todos - incluindo analfabetos - uma participação política em certos actos eleitorais, ou a reservá-la aos que dispõem de uma preparação cultural mínima. Mas, de direito ou de facto, esses eleitores não são, normalmente elegíveis. De tal modo que o poder acaba por ser confiado a uma aristocracia, ou falsa aristocracia, em muitos casos, que se recruta nas estruturas partidárias, nas estruturas autárquicas nas fileiras militares, em sociedades secretas....
Com tais processos de selecção dos governantes, receia-se que se tenham instalado no poder, por interpostas pessoas, grupos económicos dominantes, alheios a qualquer ideia de prossecução do bem comum.
Em países socialistas relativamente aos quais os próprios adversários dos regimes respectivos frquentemente criticavam os fins prosseguidos e os métodos adoptados, sem porem em causa a fidelidade dos dirigentes àqueles fins, haverá agora motivos para pôr em dúvida se a selecção desses dirigentes terá acautelado os povos quanto a aspectos de corrupção cuja maior gravidade provirá do facto de serem radicalmente incompatíveis com os sistemas e as estruturas que tais governantes foram chamados a servir.
É natural, por isso, que, entre as inovações e surpresas dos anos próximos, algumas respeitem a profundas revisões dos processos de selecção daqueles a quem se confiam os delicados mecanismos do exercício do poder.
Parece indiscutível que um técnico poderá achar-se habilitado a desempenhar funções governativas. Ao melhor nível de competência e de dignidade. Mas não será a qualidade de técnico que para tanto o habilita.
«Vauban», engenheiro militar, - presumo que incrito na ordem dos engenheiros - especializado na construção de fortalezas, era um técnico. Mas concorriam nele qualidades alheias à sua técnica, que o acreditaram como homem de cultura e que o levaram ao poder. De outro modo, sem essas outras qualidades, melhor seria que tivesse continuado a fortificar as fronteiras da França...
Paulo

03 Julho 2007

"ONDE MORA A LIBERDADE...?"

Não sei onde mora a verdadeira liberdade. Não sei onde começam e onde acabam as liberdades dos outros susceptíveis de limitarem a liberdade de cada um. Não é sustentável falar-se de liberdade quando tudo se acha sujeito a discussões e a revisões constantes e, em consequência, tudo caminha para a anarquia. Ensinaram-me que a "liberdade dos outros há-de abranger o respeito da vida, da integridade física, do bom nome...". Concordo. Mas até que ponto é que o bom nome poderá fazer concessões à liberdade de imprensa? Até que ponto a liberdade de cada um, ao emitir livremente as suas opiniões, não poderá ofender gravemente a liberdade dos outros quanto ao respeito de credos religiosos, costumes, conduta moral, nacionalidade, ascendência, sexo, raça, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social?
Fico revoltado quando me dizem que "todas as funções estaduais estão vinculadas ao princípio da igualdade". Isto, dito de outra maneira, significa que o princípio material da igualdade constitui sempre uma determinante heterónoma da legislação, da administração e da juridição. A minha revolta consiste no facto, ínequivoco, de verificar todos os dias que, afinal..., nem todos os cidadãos são iguais quando se trata de lhes aplicar a lei, dita igual para todos.
As interferências pertubadoras da cor política hão-de sempre influênciar aqueles que têm competência para avaliar o desempenho/mérito dos outros. Enquanto não existir um desprendimento de um "certo quotidiano político", a liberdade de uns tende a cercear a liberdade dos outros.
A dignidade humana reclama, há muito, que o homem actue segundo a sua consciência e livre escolha e não por um cego impulso interior ou por uma mera coacção externa. Para tanto é necessário que se liberte da "opressão" de todas as paixões que a sociedade actual lhe oferece e, assim, possa encontrar a sua orientação para o bem.
Mas o que é o bem? O que é o mal? O cepticismo relativista há-de sempre deixar por solucionar as respostas a estas perguntas fulcrais.
Uma coisa são as liberdades teóricas, abstractas, apenas visionadas, ou apenas definidas, pelo legislador e outra coisa são as liberdades reais, efectivas. Esta problemática é, também, por natureza, inseparável do respeito da autoridade, das estruturas das forças de segurança e da administração da justiça, sem eficácia das quais ninguém sabe onde mora a verdadeira liberdade.
Paulo