
A ideia de justiça, até ao século XVII, pelo menos, ou até mesmo muito mais recentemente, indissociável de um sentido de religiosidade, que continua a ela fortemente ligado em quase todas as sociedades não ocidentais, foi revestido de um respeito que explicará a célebre fórmula latina «fiat iustitia, pereat mundus» (faça-se justiça, ainda que o mundo pereça).
Mas a verdade é que o direito nasce na sociedade e para a sociedade: ampara a actividade produtiva, tutela a vida, facilita e assegura o progresso, favorece o esforço humano, o labor benéfico, a evolução geral. Ao direito interessa a prosperidade, não a ruína; a saúde, não a doença; o bem-estar, não a desgraça. Por isso, hoje a antiga fórmula latina (fiat iustitia, pereat mundus), filha primogénita da exegese tradicional, rígida, simétrica e silogística, não é acolhida pelos que aplicam a justiça numa perspectiva compatível com o bem geral e as ideias modernas de protecção dos fracos, de solidariedade humana.
Só se pode lamentar o facto de muitas pessoas, com responsabilidades de aplicação da justiça , assim não terem entendido: que se deve fazer justiça de tal modo que o mundo prossiga o rumo dos seus altos destinos.
Num momento em que a referida fórmula, vetusta e terrível, passou a ser olhada com antipatia por muitos, com desconfiança pelo maior número; alguns , inacreditavelmente, ainda a repetem como um motivo de decisão e fazem dela o seu "lema de vida".
Alguns ainda não entenderam que o direito é um meio para atingir os fins a que o homem se propõe, que a sua função é eminentemente social, construtora; logo, não pode prevalecer o seu papel antigo de entidade cega, indiferente às "ruínas" que inconsciente ou conscientemente possa espalhar entre os que estão sob uma relação funcional ou hierárquica dos que ainda fazem da antiga fórmula a "máxima" da sua forma de comandar/administrar/chefiar.
São Tomás de Aquino, em plena Idade Média, já chamava a atenção para os perigos da rígida aplicação do Direito, criando a regra "SUMMUM JUS, SUMMA INJURIA" (supremo direito, suprema injustiça: direito elevado ao máximo, injustiça em grau máximo resultante). Como disse Rudolf Stamler: « O juiz muito rígido na administração da justiça ofende a prudente intenção do legislador e incomoda os povos».
Com tudo isto, não tenho como propósito defender uma jurisprudência sentimental, ou seja, ao ponto de "torturar" os textos para atender a pendores individuais de bondade e a concepções de justiça. Não se pode desprezar o sentido evidente, nem se deve restringir um alcance dilatado, para proteger ou libertar uma pessoa. Pretendo, tão só, dizer, tal como Celso, que "jus est ars et aequi" (o Direito á a arte do bem e da equidade).
Assim, queria dizer aqueles que ainda pensam que a ascensão nas suas carreiras profissionais se consegue à custa da sua "lealdade" à referida fórmula latina que, quando a linguagem jurídica se não presta a mais de uma exegese; em tal emergência, adoptem a interpretação mais humana e em conformidade com os superiores interesses da colectividade, e não dos seus próprios interesses pessoais.
Hoje, a grande maioria dos juristas quer libertar da letra da lei o julgador, pelo menos quando da aplicação rigorosa dos textos jurídicos resulte injusta dureza, ou até mesmo simples antagonismos com os ditames da equidade. Assim, vai perdendo apologistas na prática a frase de Ulpiano "durum jus, sed ita lex scripta est" (duro Direito, mas assim a lei está escrita), prevalecendo no seu lugar o " summum jus, summa injuria" (supremo direito, suprema injustiça).
Em conclusão: O Direito prevê e provê. Logo, não é indiferente à realidade. Faça-se justiça, porém salve-se o mundo e o homem de bem que vive nas suas imperfeições, limitações e dificuldades do quotidiano.
É pena que muitas vezes as sentenças de condenação sejam lidas perante as câmaras da televisão sem que se "leia" no rosto de quem as determinou, o mínimo de pena pelo facto de ser forçado a chegar a essa tão dura extremidade: punir.
Paulo


17 comentários:
Sou pela justiça.
Obrigada pela visita ao meu "Ortografia" e pelas palavras. Um abraço.
Depois de ler um autêntico tratado de direito, digno de um verdadeiro Mestre, que posso eu dizer, simples mortal, que por este mundo ando ao sabor de ventos e marés, sem me poder defender, porque quem manda “Pode”?
Solicitar, apenas, que se faça justiça.
Beijinhos e Parabéns, Paulo, por mais esta grande lição.
Ailime
texto muito bem escrito. fora do comum. a revelar apreciável cultura jurídica (e não só).
mantenho porém uma discordância fundamental - os juristas cairam na armadilha de pensarem que servem para alguma coisa...
(sei do que falo: sou jurista!rss)
..interessante - gostei de ler.
Aprovo e concordo
Abraço
Não há que confundir Direito e Justiça.... é já um debate que tem barbas!
Não vivemos numa época de princípios fortes, basta-nos uma sociedade do mal menor... no fundo, mera conjuntura de poupanças, soltam-se os violadores e os assassinos, mas aprisiona-se por décadas os assaltantes de Bancos bem sucedidos.
Abraço.
direito e justiça... david e golias... mas a esperança é a última a morrer...
beijoca
Olá querido Paulo, belíssimo texto... Direito e Justiça... Debates já longos e nunca se chega a concenso... Beijinhos de carinho,
Fernandinha
Os média, jornais e televisões, medem-se pela sua ãncia de lucro, de venda dejornais e de audiências.
Não olham ameios para alcançar esses fins.
E depois, só o que é mediúcre, e o desbravar de privacidades intereça.
Enquanto isso, ajustiça parece andar a reboque!
É preciso que haja verdadeira e responsável juizo na justiça e igual para todos!
Quando votamos para eleger governos ou autarquias, o voto tem o mesmo valor unitário, seja de rico ou de pobre.
Logo, aleie a justiça deve ter o mesmo procedimento e o mesmo valor para actuar sobre rico ou pobre!
Abraços Paulo, este teu texto requer mais tempo de análise e reflexão!
Olho-te de soslaio,
sereno estás ao meu lado,
olho-te de frente,
teu doce olhar
reflecte-se...com agrado.
Amigo
HOJE é o «Dia da Família»
E, eu pergunto:
Que família?
Nunca tive sorte, desde dia 30-Abril que todos sabem que estou de baixa médica e não há um telefonema, uma visita, uma palavra...é terrível.
A solidão dói...muito!
Eu, em casa, uma depressão c/esgotamento me deixam prostrada e infeliz.
Preciso de alguém...que me ajude a ver cada dia com esperança no amanhã.
Beijo com carinho.
Se o funcionamento da justiça se baseia no incumprimento da lei, todas as leis devem ter a mesma importância, não podem umas ser mais importantes do que outras. Uma lei que proíbe fumar em recintos fechados, não é inferior a uma que proíba matar, como tal, tanto a primeira como a segunda, tem de ser respeitada. Como podemos admitir que o responsável do governo desrespeite impunemente a lei? Ontem foi fumar onde era proibido, amanhã poderá matar. Em que país nós vivemos?
Um abraço. Augusto
A justiça transformou-se numa mera forma de digladiar leis. O espectáculo circense em que se transformou a justiça apenas serve aos advogados. Os que precisam da verdadeira justiça ficam sujeitos às guerrilhas entre os "administradores" da justiça!!! Uma vergonha!!!
Um ótimo artigo, ancorado em conhecimentos sólidos de Direito.
No entanto, caro Paulo, de tanto ver triunfar a corrupção, a injustiça, e os crimes hediondos, tem certas horas que, chego a achar o Hamurabi natural.
Um abraço!
Paulo, porque sumiste? Tenho saudades!
Beijinhos da Daniela
Amigo, es que el derecho es un conjunto de normas escritas o no escritas que reflejan la voluntad del legislador (o el pueblo), pero NO es equivalente de Justicia, que es una virtud.
El célebre jurista romano Paulo sentenciaba "non omne quod licet honestum est" (no todo lo lícito es honesto)
Un abrazo.
sábias palavras
"grande" "olhar"
parabéns!
bom fim-de-semana
um sorriso :)
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