17 Maio 2008

"SÓCRATES APANHADO A FUMAR"

O primeiro ministro de Portugal, José Sócrates, decidiu ignorar as regras - e os avisos luminosos no avião - e fumar a bordo do Airbus A330 da TAP, que o levou de Lisboa a Caracas, Venezuela.
Ao fazê-lo, o primeiro ministro infringiu as leis internacionais da aviação, subscritas pela TAP, e a lei do tabaco - em vigor em Portugal - aprovada pelo Governo de José Sócrates.
O primeiro ministro acabou por pedir desculpa alegando desconhecimento da referida proibição.
A verdade é que as normas jurídicas assentam na presunção, geralmente inilidível, de conhecimento das normas por parte dos seus destinatários, segundo o princípio de que «nemo legem ignorare censetur», de que «a ignorância da lei a ninguém aproveita». E compreende-se que assim tenha que ser. Pois, se assim não fosse, dificilmente alguém seria responsabilizado pelas ilicitudes cometidas, desde que fosse admissível sustentar que as cometera por desconhecimento das normas que lhe vedava a conduta verificada.
A referida presunção terá que assentar num certo número de pressupostos. Ou as normas jurídicas são do conhecimento de todos porque a sua simplicidade e a sua base natural racional, as torna facilmente acessíveis, fazendo parte tal conhecimento de uma educação elementar, ou o princípio do conhecimento do direito a todos generalizado se transforma numa ficção, característica das sociedades modernas, onde todos, ou quase todos, se acham na dependência dos agentes administrativos, dos advogados e dos consultores jurídicos.
Assim, a presunção de conhecimento do direito só pode mesmo encontrar assento real pelo que respeita a algumas normas básicas, fundamentais, que sejam facilmente comunicadas pelo ambiente familiar, ou por uma preparação escolar mesmo elementar. Assim ninguém minimamente esclarecido desconhecerá que não pode matar, nem roubar, nem insultar. Mas quase todos ignorarão as condições em que podem contratar, instalar uma fábrica, comprar uma ilha ou mesmo conhecer os requisitos a observar no preenchimento das suas declarações de impostos.
As constantes alterações das normas jurídicas permitiu que o direito se tranformasse numa ficção, obrigando a que a maioria das pessoas se tornassem extremamente dependentes. Porque têm constantemente de recorrer aos esclarecimentos, ou às ordens, que lhes hão-de advir de especialistas, ou supostos especialistas, a fim de se moverem no seu quotidiano com cautelas mínimas. Assim, o princípio de que «a ignorância da lei a ninguém aproveita» não passa, na maioria dos casos, de uma ficção.
Os povos terão muito a ganhar com alguma providencial mudança de rumos que permita legislar bastante menos e com mais apurada correcção. Caso contrário, - a inflação legislativa - os povos ficarão na dependência de um pequeno número de especialistas, depositários e intérpretes das leis.
Com base no princípio ora em causa, o primeiro ministro de Portugal, José Sócrates, terá, inevitavelmente, que ser punido em conformidade com a legislação em vigor, com o agravante de, como primeiro ministro, ter violado o dever moral/ético/politico, reforçado, de dar o exemplo.
Paulo

26 comentários:

Maria Pires disse...

olá, tenho um desafio para ti, aparece

beijo

Jofre Alves disse...

No entender do senhor (bacharel? engenheiro?) Pinto de Sousa, a lei não se aplica ao senhor Presidente do Conselho de Ministros, que por mero acaso são a mesma pessoa.

Agora prometeu deixar de fumar, mas se esta promessa tiver o mesmo valor que as demais promessas feitas a três anos...

Boa semana com tudo de bom

Ailime disse...

Pois, por se dar tanto relevo a coisas banais, como por exemplo às habilitações literárias e não às competências, (e os erros ortográficos?) e outras tantas coisas similares, é que este pobre país não verá tão cedo, o seu Sol de Abril brilhar...
Apesar de tudo, um beijinho, para o Paulo, claro. Sempre!
Ailime

Anónimo disse...

Quanto a mim, pior do que ter sido "apanhado" a fumar, é mesmo não pagar a multa, quanto sei....
Subscrevo na íntegra....a ignorância da lei não aproveita a ninguém, mas neste caso, nem nisso se pode falar.

Cumprimentos,

Mónica

Vieira Calado disse...

Plenamente de acordo. Não tem nada a alegar. E deveria ter pena maior que os outros... porque é injeheiro... chefe...
Um abraço

JOSÉ FARIA disse...

Pois é, na verdade continuamos na dependência e sujeitos às maiores atrocidades e atropelos por aqueles que fazem as leis mas não as cumprem. Vejam quantos desses já foram apanhados em excesso de velocudade.
As multas são para nós, para o povo.
Mesmo que um cidadão seja apanhado a fumar onde a lei não permite, e mesmo que diga que vai deixar de fumar, não deixa de pagar a multa.

Bom Domingo amigo Paulo.
Faria

lélé disse...

Concordo plenamente que não se fique por um pedido de desculpas, porque, nesse caso, vai ter de pedir desculpas por muitas emuitas outras coisas.
É um facto, que não podemos alegar ignorância da lei perante uma acusação de delito (não sei se estou a usar as palavras correctas, mas não tenho estudos) e a variação constante das mesmas nos deixa nas mãos daqueles advogados que melhor souberem "dar a volta" à questão (como na América) e, normalmente, esses advogados são inacessíveis à maioria da população, além do que, nesses casos, a palavra "justiça" não é mais que a designação de uma cena de oratória decorrida num tribunal. Assim, também nisso concordo contigo, a legislação deve ser mais parca, mais precisa, mais correcta.

sp disse...

Pois! Enfim...
As leis são para todos mas...

Um abraço.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Paulo
Está aqui tudo muito bem explicado e o PM tem que ser punido. Mas eu acho que os jornalistas que aceitaram fazer parte da comitiva e que foram chibar que Sócrates fumou atrás da cortina só para venderem noticia, não merecem consideração.
Abraço

Jorge P.G disse...

Sobre este caso já nem falo! A reação dele foi ainda pior do que o acto.

Hoje, fundamentalmente, deixo-te um abraço no dia de SAINT YVES HÉLORY, de KERMATIN, patrono dos advogados e também das crianças abandonadas, e chamado pelos seus contemporâneos de "Advogado dos Pobres".

LFM disse...

nem mais, nem menos

herético disse...

punido? acho bem. Com coima?! ...

abraços

Jacinta Correia disse...

Desconhecerá que o cidadão comum paga a coima quando infringe as leis?? Um dia pedirá desculpas novamente, por outros actos ilícitos, por outros erros cometidos. E assim vai o país...(des)governado. Bj.

Gooffy007 disse...

Ainda julgo que continuamos a perder tempo com coisas sem importância.

Mas gostei muito do teu texto e do ensaio de opinião.

uga
jpp

Rato disse...

"tenho um sonho", que brevemente espero se torne realidade. Como tudo hoje é digital, do papel ao DR. Sonho com um grande apagão informático. Depois? recomeçaremos!!!!

DelfimPeixoto disse...

E o que ele não fará mais e nós não sabemos? Temos o direito de perguntar

mariam disse...

todos os cidadãos são iguais (deveres e direitos)... mas... parece que afinal...uns serão mais iguais que outros!

bom feriado

um sorriso :)

Sónia Pessoa disse...

não me levem a mal, mas isto é realmente importante??? tanta coisa mais sobre que falar e perde-se tempo com coisas destas? eu não tenho preferência partidária, mas quem nunca cometeu uma ilegalidadezinha que atire a primeira pedra...

Ailime disse...

Cara Sónia Pessoa!
Até que enfim que alguém concorda comigo!
Não posso estar mais de acordo com o que escreve!
Beijinhos cordiais para todos!
Para o Paulo também!
Sempre.

mfc disse...

Já Georges Orwell dizia que todos os animais eram iguais, mas que havia animais mais iguais do que outros!

Alexandre disse...

Análise completíssima do tema Sócrates/fumo!

O que eu sei é que Sócrates saiu a ganhar com isto tudo porque teve a «humildade» de pedir desculpa em público e essas coisas traduzem-se sempre em votos. É que falta um ano para as próximas legislativas...

Um abraço!!!

João Moreira disse...

Se fosse eu estava preso. Isto é só para quem pode.

Pena disse...

Talentoso e genial amigo Paulo:
O que mais me suscita apreensão, desencanto e, até, tristeza, é precisamente o exemplo desastroso, insensato e de pleno descrédito que os governantes PS têm mostrado ao nosso lindo País.
Já não chegava fazerem leis polémicas, discutíveis e desagradáveis, agora esta conduta de um PM que deveria ser exemplar, sensata e de enorme valor de crédito para com todos nós.
Sabe, brilhante amigo, isto provoca-me náuseas, um total descrédito pelos políticos, um má perspectiva até pela "mensagem" que transmite aos mais novos que expressam o desagrado pela educação, pela justiça, pelas leis, pelo desconforto emocional visível, que lhes provoca a eles e a nós, uma hilaridade perante tudo o que sentimos e damos algum valor.
Para mim, isto merecia uma punição severa ou somos só nós que devemos ser punidos pelos actos de greves, revoltas e falar sobre eles num país livre que já não o é?
Triste atitude que não o afectou muito pelo que pude observar.
Costuma-se dizer: É o País que temos. Sempre na cauda da Europa e na cauda da defesa de valores e princípios educacionais que deixam muito a desejar.
Enfim, não me admira já nada...!!!
Sem mais, os meus sinceros parabéns pela magia literária que faz parte integrante do seu Ser/Sentir gigantescos de postura sensata e sóbria na vida. Brilhante, mesmo.

Abraço forte de estima e amizade
Sempre a considerá-lo e a respeitá-lo

pena

Klatuu o embuçado disse...

Mandem-no pra Olivença construir vivendas!!

Abraço!

Klatuu o embuçado disse...

Fizeste um comentário muito bonito... por vezes o menino excede-se! ;)

Toma: Flamenco!!
A Yashmeen enviou-me e tou a espalhar pela malta que merece.

Abraço!

seriesdeinfancia disse...

O primeiro-ministro, José Sócrates, assumiu que fumou no voo entre Lisboa e Caracas, lamentou a polémica que entretanto se instalou em Portugal e pediu desculpa caso se verificasse que violou a lei.
........
Quer dizer, se alguma vez eu for apanhado em excesso de velocidade, estacionar mal, etc... bastará dizer "Se violei alguma lei, peço desculpa...", e o Sr. Agente da Autoridade irá deixar-me ir?