19 Junho 2008

"AUTO-APREÇO MUTILADO"

"Quem vê olhos não vê corações".
Foi este o provérbio popular que, certo dia, alguém utilizou para me fazer reflectir quanto ao estudo da personalidade humana.
O "objecto" de estudo acabou por ser o nosso professor de filosofia.
Um professor que experimentava uma necessidade permanente de impressionar, ser admirado e respeitado. Tinha, por regra, elevados desejos de deslumbrar os alunos pela sua inteligência, pelos seus alegados feitos notáveis no estudo da filosofia e outras ciências. Um professor que gastava dinheiro ostensivamente; que sabia falar sobre todos os livros recentes e estava a par das últimas estreias dos mais variados eventos.
Não suportava que alguém - colega, amigo, aluno, desconhecido - o deixasse de admirar.
Toda a sua auto-estima era motivada pelo facto de ser admirado e, muitas vezes, sentia-se mesmo desamparado quando essa admiração lhe parecia ausente.
Era um professor com excessiva sensibilidade e um persistente temor da humilhação o que convertia a sua vida em martírio. Ainda assim, nem sempre tinha consciência de que se sentia humilhado, parecendo que tal reconhecimento tornar-se-ia demasiado doloroso para si. Com consciência, ou não, da humilhação, reagia sempre contra este sentimento com ira desproporcionada a uma certa dor sofrida.
A conclusão sobre o estudo da personalidade do professor, classificou-o de narcisista.
Eu, na altura, não concordei. Pois analisando bem o termo "narcisista" pareceu-me equívoco: embora sempre preocupado em exaltar o «eu», o professor não o fazia primordialmente por amor a si próprio, mas, na minha opinião, para se proteger do sentimento de insignificância e diminuição - ou, em termos positivos, para restabelecer uma espécie de auto-apreço mutilado.
Hoje é um velho professor que aumentou a distância das relações com os outros - até com os ex-alunos.
Esta enorme e estranha distância, tem decepcionado os seus ex-alunos.
No dia 10/06/2008, voltei a encontrá-lo. Cumprimentou-me com um "olá Paulo...". Pareceu-me ansioso de poderio. Aquele "olá Paulo..." pareceu-me ter sido prenunciado de modo "gelado"... sinonimo de necessidade de infalibilidade e de se ser extraordinário, único, aos próprios olhos.
Porém, recordo, ainda, as suas palavras da última aula de filosofia: «A verdadeira ciência nunca é respeitável; ela é uma selvagem em constante revolta contra os "slogans" desprovidos de sentido».
Estranho professor....

Paulo

34 comentários:

TheImpossiblePrince disse...

estranho..mas que tal como a filosofia, faz pensar, faz questionar, o que é sempre positivo.

Este post lembrou-me um pouco o que hoje acabei de falar no meu.

Abraço

Klatuu o embuçado disse...

Não viste o convite que te enviei por e-mail?

Anónimo disse...

Gostei!
Escreves bastante bem.
As tuas análises psicológicas trouxeram-me à memória um grande pensador que punha tudo em causa de uma forma desconcertante. Talvez gostasses de o ler: Krishnamurti.
Gostei.
johnjohn

rouxinol de Bernardim disse...

Isto é-se preso por ter cão e por não ter: se se tem auto-estima é-se narciso, se se não tem, é-se humilhado por nao se dar ao respeito, à consideração, etc.

«Ter cão ou não ter cao, eis a questão!»

Como diria o «nosso» Shakespear...

Orlando disse...

Estou parcialmente de acordo com o professor. O problema é saber se existem slogans providos de sentido que se oponham aos desprovidos de sentido. E depois, saber se existe a verdadeira ciência, e se existe, o que é. Segundo Thomas Kuhn (in “A Estrutura das Revoluções Científicas”), “a ciência é aquilo que os cientistas querem e fazem”; sendo assim, o que separa a ciência de um slogan?

Da maneira como é tratada a filosofia nos dias que correm pelos “engenheiros” da UNI e pelos economistas que não aprenderam a escrever correctamente a língua portuguesa, não me admira nada que o professor sofresse de um síndroma de auto-mutilação. Não é caso para menos. E a frieza do “Olá, Paulo”, não será a frieza da desilusão de um filósofo perante o rumo estupidificante que a sociedade tomou, em vez de ser uma manifestação de frieza intencional e direccionada para alguém em particular?

mateo disse...

Ser professor não é "o" problema. Nem sei se chega a ser problema ser PESSOA... assim ou assado!
Abraço.

Parapeito disse...

Existem de facto professores que de uma maneira ou outra, deixam a sua marca.
Gostei de te ler.

Tem um fim de semana adornado por uma brisa fresca***

elsa nyny disse...

Estranho...mesmo!


bjtssss

um Ar de disse...

Ó Paulo,
.
que azar, apanhares tal personagem como professor de Filosofia!...
.
Enfim... como professor!
.
Terás tirado partido de tal "encontro", certamente. Mas, não consigo deixar de lamentar. A Filosofia não se compadece desses "humores"... se há disciplina que precisa de outras personagens, é essa!...
.
[Beijo...]

lélé disse...

Tu viste, estudaste, observaste esse professor dessa maneira.
A forma como o descreves é muito viva e peculiar e penso que seja por isso, que a pessoa em si nos pareça, eventualmente, estranha.
Não acredito que ele fosse narcisista, porque, pelo menos, na minha ideia, um narcisista não precisa de ser adorado por quem quer que seja, nem sabe o que é humilhação. Ele próprio se adora e remete à insignificância tudo e todos que não o façam.

lélé disse...

Desculpa... Falei sem ter lido correctamente o que escreveste.
Concordo plenamente contigo, quando dizes que não será narcisismo, mas antes a tentativa de compensar uma auto-estima mais que mutilada, eu diria mesmo quase inexistente!...

Ailime disse...

Eu, espírito de contradição e um pouco teimosa, direi que quem vê olhos vê corações, contrariando o provérbio!
Um olhar doce e ingénuo de criança, um olhar suplicante de alguém em apuros, um olhar baço de alguém que chora, diz muito acerca do que lhes vai na alma!
Sobre o professor não acho nada de estranho!
Pela vida fora e nos mais variados locais vamos (fui) encontrando pessoas como esse professor de filosofia! Dessas pessoas, dispenso os seus cumprimentos!
O que essas pessoas muitas vezes pretendem e conseguem é não olhar a meios para atingir fins!
Dispenso-as!
Bj.

mariam disse...

esse professor.. deve ser um infeliz!

mas, se calhar foi muito feliz o seu (mau) exemplo...

noutros e ... em Si, este e outros "post" são prova disso...!

bom fim-de-semana
um sorriso :)

Miki disse...

Fim de semana radioso!!!


Abraça o teu amigo.
O toque entre amigos
é sagrado,porque faz a
ligação entre o corpo e a alma

Ailime disse...

Paulo Sempre!
Pode crer que as suas visitas me deixam muito feliz!
Obrigada por isso!
Um bj.

david santos disse...

A primeira motivação para a organização de qualquer ciência advém do reconhecimento, por parte dos organizadores e de outros "Docentes" nas diferentes estruturas curriculares do ensino "superior", da necessidade de disporem, como referência bibliográfica de introdução a qualquer das áreas, incluindo a filosofia. Mas sobre os métodos errados ou não deste professor, não me atrevo a opinar nem sequer achá-lo estranho.
É que há métodos. E os métodos, embora se discutam, "não se discutem".
Brilhante, mais uma vez...

David Santos

Guiomar Barba disse...

Conheço alguém muito atuante aqui no Brasil exatamente igual ao professor.
Outro dia lí uma postagem dele que me levou a entendê-lo; dizia o seguinte: meu pai nunca me deixou brigar com meninos menores do que eu ou do meu tamanho, sempre tinha que ser grandes e ainda que eu perdesse meu pai me convencia de que eu havia ganhado...
O que gostei foi mais uma vez comprovar a sua sensibilidade. Vc vê dentro das pessoas mesmo a distância. Te amo desde o Brasil. Guiomar.

madalena disse...

Estranho mas inteligente professor. :)

Fa menor disse...

Há pessoas que se colocam em altos pedestais...
achando que os que os rodeiam lhes devem votar veneração e, quantas vezes, não fazem de tudo para os manipular!
Porém, nem todos os outros são assim tão tapados... e acabam por enxergar a pessoa que têm pela frente deixando-a sozinha com as suas manias de grandeza.
Conheço alguns, rodeados pelos da sua laia e pelos seua lambe-botas. Tenho pena!

Bjs, Paulo!

Vieira Calado disse...

Mas eu aprendo sempre muito com os são (parecem) estranhos.
Um abraço

Pedro disse...

O retrato desse professor fez-me lembrar o que se poderia fazer para Sócrates!!! Muita imagem, muito egocêntrismo e muita arrogância...

Fénix disse...

Tiveste um professor parecido ao que eu tenho agora... Se bem que o meu tem uma dose de ironia adicionada a essa mistura organizada de caracteristicas.

Fil disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
Fil disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
Fil disse...

ola!!
adoro ler os seus textos
sei que parece estranho para um rapaz de 12 anos mas é verdade.
pecebo pouca coisa mas o que percebo acho fascinante, o que nao percebo o meu pai explica-me.
á mesmo que te chamar um génio

Fil disse...

dá uma visita ao meu blog e comenta
s.s.f.
(espero que gostes)

Olhos de mel disse...

Oie lindinho! Esse é um dos provérbios mais certos que conheço. Muitas vezes sorrimos para dissimular a tristeza que trazemos por dentro.
Bom fim de semana! Beijos

O Profeta disse...

Hoje o Mar adormeceu na Aurora
O dia desponta em doce calmaria
Um barco cede ao embalo do vento
Uma gaivota na escarpa o ninho vigia

Hoje o Sol pintou de luz o verde
As hortênsias são nuvens na terra
Plantadas por um deus romântico
No sortilégio que esta ilha encerra


Bom fim de semana


Abraço

vida de vidro disse...

É bom voltar aqui e sentir novamente o pulsar da prosa deste sítio. Obrigada por teres estado presente no meu regresso. **

Jofre Alves disse...

Professores são como a vida e as pessoas em geral: uma são uma ilusão e as outras uma desilusão. Tal como o sentido da vida e as opiniões: cada qual tem a sua. Foi assumido prazer ler o seu texto. Boa semana com tudo de bom.

VdS disse...

Primeira vez que passo por aqui e este post convidou-me a ficar por mais um bocado..
Vou viajar*

Marlene Maravilha disse...

As pessoas esquecem o princípio de que para ser o maior, precisamos realmente ser o menor no meio dos homens.
beijo

Cleopatra disse...

Posso desafiar-te para o que vai lá no Cleopatramoon? Uma carta de (des)amor?

Seminário disse...

Parabéns!!sabias palavras ,que vc continue sendo guiado poderosamete por Deus!!
Seminario Internacional Teologico de São Paulo