
É certo que houve progressos em Portugal e que as pessoas vivem hoje mais desafogadamente do que viviam há anos.
A verdade é que, infelizmente, ainda restam muitos problemas por resolver, os quais têm criado um nefasto ambiente social digno de "registo".
Chegamos, finalmente, a 2008. Muitas expectativas ficaram pelo caminho.
Num olhar sobre o actual "retrato social ", vislumbra-se uma realidade degradante:
- políticos que perdem o respeito uns pelos outros e se acusam, mutuamente, como se fossem "lobos" famintos de poder.
- notícias de abuso de crianças, corrupção, criminalidade violenta, administração arbitrária, descontentamento nas Forças Armadas e de Segurança, abrem os telejornais e as primeiras páginas dos jornais;
- "pontas de lança" nos sectores da banca , finanças e seguros, mostram-se cada vez mais agressivos como que a "sacudir" os "inimigos" em sua volta;
- as reivindicações traduzem-se, frequentemente, por ameaças, insultos e "braços de ferro";
- não se pune, exemplarmente, omissões de deveres e/ou condutas politicamente lesivas dos direitos dos administrados;
- a insegurança aumenta nas ruas, com uma total falta de respeito pelas pessoas e bens;
- as indefinições quanto à reestruturação, em curso, das instituições começa a dar mostras de uma certa incoerência, um impiedoso ambiente que torna cada vez mais difícil o respeito e a disciplina no interior das mesmas;
- os que trabalham com dignidade e honestidade, ficam preteridos nas suas carreiras, tornam-se pessoas "não gratas" só porque não "alinham" em certos esquemas contrários à moral e à dignidade da pessoa humana;
- a comunicação social, voltada para o sensacionalismo e para o superficial, criou hérois de "papel";
- as instituições religiosas viram reduzido o seu campo de acção e minimizado o seu objecto fundamental de educar e promover os valores transcendentes e morais;
- a família está cada vez mais fragilizada e desapoiada;
- a escola tornou-se uma "solidão povoada", desprovida de motivação para instruir e educar;
Nada disto aconteceu de um momento para o outro. A situação actual é o resultado da falta de uma acção política regeneradora dos dinamismos que podem influir positivamente sobre o processo degenerativo da sociedade em que ora vivemos.
O povo sensatamente adverte, numa sabedoria de séculos, que «quem semeia ventos, colhe tempestades». Ainda assim, não tem faltado, ao longo dos anos, quem dissemine impunemente o tecido social, quem impeça que se desenvolva e implemente uma acção que ajude o enraizamento e a promoção dos valores indispensáveis a uma convivência social e sem medo.
Nestes tempos de inércias, desistências e omissões, restam as indispensáveis esperanças num povo, históricamente resistente, capaz de inflectir uma democracia que se deteriora vertiginosamente...
Paulo Sempre