Terminava o século XX quando conheci alguém da Maçonaria. Todas as nossas horas livres eram consagradas ao debate intérmino dos nossos problemas que tinham sempre feição literária mas muitas vezes transcendiam de longe toda a literatura, porque eram sobretudo, e além de tudo, dolorosamente humanos. Reuníamo-nos irresistivelmente por uma obscura e espontânea afinidade de simpatia pela "ordem secreta iniciática", a maçonaria.Hoje, 20/02/08, encontrámo-nos, trocamos algumas palavras - e ficamos longamente a conversar - juntaram-se as recordações.
Agora o meu "irmão" esta muito diferente. O condicionalismo precário da sua vida de relação, a particularidade do seu temperamento, a aberração dos seus nervos, a qualidade rara da sua inteligência, a enormidade e variedade das suas leituras, a profundidade das suas meditações, a sua ensímesmação obsessiva, conferem-lhe uma posição diferente, de inadaptado à existência, de inconforme com o actual, de incompatível com o vulgar, revoltado contra o estatuído e assente.
O encontro, entre "irmãos"* terminou. Agora os olhos de ambos sondam o horizonte, mas o horizonte oferece sempre a mesma resposta - Mistério. Sim: sob o batismo do mistério, os olhos fogem do horizonte e peregrinam continuamente pela charneca que envolve o lugar enquanto os sobreiros se contorcem e se enclavinham na teimosa chuva miudinha, gemendo: "somos testemunhas! somos testemunhas".
O avental, de forma rectangular, branco, sem qualquer ornamento (porque eramos aprendizes) ficou algures esquecido naquele lugar.
Afinal, a maçonaria, essa "ordem secreta iniciática", é mais do que uma excentricidade maravilhosa de raciocínios subtis, é um universo de mistérios antigos que as gerações que hão-de suceder à nossa, ainda não poderão compreender.
* irmãos : tratamento entre maçons. Como iniciados, consideram-se como tendo recebido a luz, pelo que também se designam por "Filhos da Luz".
Paulo





