28 Março 2008

"FUI COMO AS ERVAS E NÃO ME ARRANCARAM..."

Decorrerem alguns anos... dez anos? doze anos?...Não sei! Não sei, exactamente, quando deixei a minha adolescência...

A verdade é que a "roda" do tempo deixou algumas "marcas". Muitas das coisas sagradas foram pulverizadas - e amassadas de duvidas e suspeições. As opiniões modificaram-se. Alteram-se as coordenadas sociais.
Cavou-se um abismo entre o adolescente que eu era, tímido e ousado, desembaraçado e retraído, contraditório no espírito e na acção - e o adulto que hoje sou, desassossegado, contemplativo, indiferente, desmotivado...
Mas muito do que era - ficou fundamentalmente. Se olhar o pretérito, não posso furtar-me a um frémito de espanto ao ver como a adolescência foi "grande"- pela pureza do coração, pela nobreza do espírito, pela ansiedade dos silêncios grandes - só interrompidos pelo "pranto" das cigarras ou o uivar dos caninos. A minha alma era uma seta de fogo despedida para o infinito.
Na encruzilhada - Cruz de Cristo posta horizontalmente sobre os caminhos da vida- enveredei por labirintos diversos, que não importa aqui "desfia-los".
Ainda assim, não creiam os cândidos espíritos deste mundo que foram sempre, necessariamente, inferiores, os que, como eu, o destino marcou para a bem-aventurança do limbo.
Muitos dos companheiros da minha adolescência, quando já rigorosamente "equipados" com o "canudo da sabedoria", caíram ingloriamente antes mesmo de se iniciarem na "maior idade".
Hoje, não tenho "vistas largas" nem grande sabedoria pelo que, não posso ver, ao longe, claramente os caminhos sinuosos do actual quotidiano. Porém, tenho para me guiar, ao perto, nas estradas batidas, os olhos pacientes dum cão mendigo...
Não sou dos que se acomodam, adaptam, se colam à terra e roem flores e lama. Também não sou dos que vivem "no fio da navalha" pois ensinaram-me os dias agrestes da adolescência, que os viageiros do infinito acabam por queimar-se no lume brando das estrelas.
Não quero sofrer as vertigens das alturas e/ou fazer do "calvário" da vida, um trampolim de dor que se arrasta nos horizontes amortalhados da poeira anónima das nebulosas paixões.
Quando me perguntarem como fui na minha adolescência, hei-de responder, sempre, como Álvaro Campos: «Fui como as ervas, e não me arrancaram».
Paulo

22 Março 2008

"PÁSCOA"

Sempre pensei que houvesse um rei, escolhido por Deus e a quem
todos os príncipes e todos os povos cristãos prestassem respeito e obediência.
Por vezes, imaginei esse rei falando a todos os seus súbditos e dizendo-lhes que tornassem este mundo mais justo, para que:
não haja crianças carecidas de alimentação e educação suficientes;
não haja jovens privados da formação necessária;
não haja camponeses sem terras para viverem e se promoverem com dignidade;
não haja trabalhadores lesados nos seus direitos;
não haja sistemas que permitam a exploração do homem pelo homem ou pelo Estado;
não haja corrupção;
não haja pessoas com muito de supérfluo, enquanto a outras tudo falta sem culpa sua;
não haja tantas famílias mal constituidas, desfeitas, desunidas, insuficientemente ajudadas;
não haja injustiça e desigualdade na administração da justiça, e a ninguém falte a protecção da Lei, igual para todos;
a força não prevaleça sobre a verdade e o direito;
o económico e o politico não prevaleçam sobre o humano.
Afinal, esse Rei eterno, que quis conquistar o mundo inteiro e submeter todos os seus inimigos e entrar com ele na glória do seu Pai, parece não "viver" o presente. Afinal não se vislumbra qualquer acção da sua parte para punir os que geram pobreza, impedem o desenvolvimento económico, provocam injustiça social e são responsáveis pela degradação do sistema politico e das instituições públicas.
É frequente falar-se insistentemente numa «igualdade de oportunidades», numa igualdade nas posições de partida. Mas pôr-se-á sempre a questão de saber se essa suposta igualdade, fictícia pela generalidade do conhecimento prévio de desigualdades abissais entre os concorrentes, não estará na origem de dramáticas expectativas e de trágicas frustrações, cuja razão será dificilmente entendida pelos vencidos, e com dolorosas consequências tanto nos planos individuais como no colectivo. O Rei eterno bem podia aclarar muitas dúvidas que desassossegam o homem, mas, ao invés , remete-nos para a fé, para a castidade, para a obediência... como se fossemos todos criancinhas incapazes de ver que o Vaticano e os seus mais "altos" ministros, gozam de privilegios em nada comparados com a vida pobre de Jesus na Terra.
Hoje, a Igreja não passa duma empresa económica.
É impossível conceber-se a existência de Jesus desprovida de omnipotência e omnisciência mas... a verdade é que, muitas vezes, não se sabe onde Ele se encontra nem porque não chegou a tempo.
É, por tudo isto, que quanto mais estudo os "mecanismos" eclesiásticos, mais me perco e vejo menos possibilidade de encontrar aquele Cristo que não dá a "cara".
A retórica capciosa que se empenha em negar estas verdades, só poderá ser aceite por mentes eivadas de interesseiro sectarismo ou por cérebros dotados duma razão débil.

Paulo

18 Março 2008

"FUROR INAUDITO..."

O mundo moderno conheceu a mulher que pretendeu emancipar-se (material e espiritualmente) da mulher. O clima «ginecocrático» da civilização ocidental actual (e em grau mais elevado ainda, da civilização americana) é posto bem em evidência atravez das seguintes palavras de um personagem de D. H. Lawrence (Aaron,s rod, cap. XIII). «A importância fundamental da mulher na vida, da mulher portadora e fonte da vida, é a crença profunda professada por todo o mundo branco...Quase todos os homens aceitam este princípio. Quase todos os homens, no momento mesmo em que impõem os seus direitos egoístas de senhores e de machos, aceitam tacitamente o facto da superioridade da mulher portadora de vida. Professam tacitamente o culto de tudo o que é feminino. Estão tacitamente de acordo para admitir que a mulher é tudo quanto existe de produtivo, de belo, de apaixonado e de essencialmente nobre no mundo. E embora possam querer reagir contra essa crença detestando as suas mulheres, recorrendo às prostitutas, ao álcool, a qualquer coisa, como revolta contra esse grande dogma ignominioso da superioridade sagrada da mulher, não conseguem senão profanar o deus da sua verdadeira fé. Ao profanar a mulher, continuam, embora de forma negativa, a render-lhe culto... O espírito da virilidade desapareceu do mundo...Os homens (de hoje) não poderão jamais unir-se para combater pela justa causa, pois mal apareça uma mulher com os seus filhos, encontrará imediatamente um rebanho de carneiros prontos a defendê-la e a abafar a revolta».
Perante isto, importa, de facto, - para além dos problemas com o casamento o divórcio, a emancipação, o amor livre, etc. - , saber em que medida, numa determinada sociedade, e numa dada época, se o homem e a mulher podem ser eles próprios, numa aproximação nítida dos arquétipos correspondentes.
Paulo

08 Março 2008

" DIA INTERNACIONAL DA MULHER: OITO DE MARÇO..."

Hoje é o dia Internacional da mulher. O teu dia, também, Mariana.... É sempre neste dia que me recordo : de todos os jogos em que nos envolvemos sempre preferimos jogar às escondidas e mais uma vez acedi à tua vontade. Lembro-me de todos os sítios onde te costumavas esconder de mim. Lembro-me dos teus passos que pontuavam todo o tempo que te concedia para te esconderes enquanto eu cerrava os olhos para ser fiel às tuas regras.Tantas e tantas vezes jogámos este jogo. Outras tantas vezes fingi não te encontrar para que o jogo se prolongasse por cada um de nós. Deliberadamente fingi não ver a tua roupa atrás das portas, no cimo das árvores e nos quartos onde mergulhavas na escuridão. O teu perfume sempre te denunciou e eu nunca te confessei que era através dele que eu te reconhecia.Mais uma vez aceitei jogar o jogo, mais uma vez iniciei eu a contagem bem alto para te dar tempo para te esconderes. Porém, desta vez não percebi porque insististe em voltar a jogar. Desta vez, dei-te mais tempo para que te escondesses, apenas não percebi a mudança do teu perfume, não te encontrei nos lugares habituais e perante a tua ausência, terminei o jogo. O teu esconderijo desta vez foi perfeito, o teu esconderijo foi uma fuga. Essa foi a tua nova regra.
Eu sei que os caminhos da liberdade e a erosão dos valores culturais contribuiram para essa fuga. Tudo contribuiu para acelarares a mágoa que te ia descalcificando a militância de defensora estrénua da igualdade entre homens e mulheres, de uma inteligencia dos valores assentes no sonho e na melhoria da mentalidade dos Povos. É certo que, desde então, os dias para mim deixaram de ter o mesmo fascínio, o mesmo sortilégio, a mesma poderosa alegria de quando te conheci. Talvez eu não tivesse reparado - por ser homem - que eras uma mulher tão invulgar e rara quanto limpidamente estranha. Que perseguias, obstinadamente, o que te excedia, numa desesperada procura do absoluto.
Podes, por isso, vir buscar as flores que, hoje, comprei para ti.
Paulo

02 Março 2008

"HÁ QUEM FAÇA "RETRATOS"..."

Há quem faça "retratos bonitos" só que não há a quem. Há muito tempo que as personagens oficiais sofreram descrédito "iconográfico". De tanto dele abusarem os orgãos de comunicação social, fotograficamente, o "retrato" de Portugal de Camões, - esse rochedo batido por todas as tempestades e que se imaginava de pé sem que alguma vez algum furacão podesse abalar -, ganhou, nestes últimos anos, outra identidade: uma identidade policial, tal como os números das portas ou o numero único de processo crime, cerceamento das liberdades individuais, solidão, medo do outro, ameaça de aniquilamento, etc...
Os "retratos" que agora observamos - em todos os quadrantes da sociedade portuguesa - , mostram impudicamente que não há quem faça "retratos" sem interesse pessoal ou sob coação. Os verdadeiros "pintores" que ainda os fazem, a menos que sejam comerciantes de mundanidades ou acessores de imagem pagos a preço de «ouro», sabem disso magoados, e cada retrato que lhes sai das mãos é um desgosto visível, ou um jogo formal, para disfarçar a verdadeira realidade mas que o «sistema» assim "obriga".
O verdadeiro e actual "retrato" de Portugal é um "retrato" que a hitória apresentará sem nome, emoldurado nas teias de um armário, peça arqueológica...espólio de fome ou herança inscrita nas páginas dum inventário. Este "retrato" , que ninguém agora quer olhar, é o verdadeiro "retrato" que as futuras gerações Jámais podem tirar da "moldura" do seu imaginário pretérito.
Este "retrato" não tem valor histórico, mágico se quisermos: mitológico.
No naufrágio universal das crenças, que destroços onde possam agarrar-se ainda as mãos de um Povo com lágrimas? Fora do amor do «bem-estar» e do luxo (?) de um dia, nada se avista à superfície do abismo. Dir-se-ia que o egoísmo tudo submergiu; aqueles - poucos - que procuram, ainda, salvar as «almas» e que procedem com coragem para criarem um "retrato" diferente, sentem-se na eminência de serem esmagados pela retórica política e pelas cores, enganosamente vivas, do descontentamento cinza do quotidiano algemado.
Os "pintores" deste "retrato", por serem políticos e a justiça ser incompreensivelmente lenta, hão-de, um dia, infelizmente, negar a sua autoria perante o "tribunal da história".
Sem poder contar com Deus - esse estranho e distante "pintor"- encontramo-nos, mais uma vez, face a face com o "retrato" do "Gigante Adamastor do Século XXI" sem, contudo, existirem, agora, os meios para o controlar e dominar.
Paulo