Decorrerem alguns anos... dez anos? doze anos?...Não sei! Não sei, exactamente, quando deixei a minha adolescência...
Cavou-se um abismo entre o adolescente que eu era, tímido e ousado, desembaraçado e retraído, contraditório no espírito e na acção - e o adulto que hoje sou, desassossegado, contemplativo, indiferente, desmotivado...
Mas muito do que era - ficou fundamentalmente. Se olhar o pretérito, não posso furtar-me a um frémito de espanto ao ver como a adolescência foi "grande"- pela pureza do coração, pela nobreza do espírito, pela ansiedade dos silêncios grandes - só interrompidos pelo "pranto" das cigarras ou o uivar dos caninos. A minha alma era uma seta de fogo despedida para o infinito.
Na encruzilhada - Cruz de Cristo posta horizontalmente sobre os caminhos da vida- enveredei por labirintos diversos, que não importa aqui "desfia-los".
Ainda assim, não creiam os cândidos espíritos deste mundo que foram sempre, necessariamente, inferiores, os que, como eu, o destino marcou para a bem-aventurança do limbo.
Muitos dos companheiros da minha adolescência, quando já rigorosamente "equipados" com o "canudo da sabedoria", caíram ingloriamente antes mesmo de se iniciarem na "maior idade".
Hoje, não tenho "vistas largas" nem grande sabedoria pelo que, não posso ver, ao longe, claramente os caminhos sinuosos do actual quotidiano. Porém, tenho para me guiar, ao perto, nas estradas batidas, os olhos pacientes dum cão mendigo...
Não sou dos que se acomodam, adaptam, se colam à terra e roem flores e lama. Também não sou dos que vivem "no fio da navalha" pois ensinaram-me os dias agrestes da adolescência, que os viageiros do infinito acabam por queimar-se no lume brando das estrelas.
Não quero sofrer as vertigens das alturas e/ou fazer do "calvário" da vida, um trampolim de dor que se arrasta nos horizontes amortalhados da poeira anónima das nebulosas paixões.
Paulo





